Inadimplência atinge 51,98% da população adulta do DF

Dados apontam para mais da metade da população do Distrito Federal em situação de endividamento ou inadimplência. Cartão de crédito e empréstimos bancários estão entre as principais causas de atraso. Especialistas dão dicas de como sair do vermelho

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No Distrito Federal, 51,98% da população adulta está inadimplente, o que representa 1,2 milhão de pessoas. Os dados são da edição de dezembro de 2023 do Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas da Serasa. De acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), de dezembro de 2023, 79,9% das pessoas estão endividadas na capital do país. Especialistas falam sobre como se organizar e tentar sair do vermelho em 2024.

Mário Barroso, 48 anos, veio do Piauí para tentar ganhar a vida, no DF. A solução encontrada foi como vendedor ambulante. Durante a pandemia da covid-19, as coisas começaram a ficar ruins. “Ninguém queria comprar. Todos estavam com medo do vírus, e eu passei um aperto muito grande. A única saída era abusar dos cartões de crédito. No momento em que atrasei a primeira fatura, minha dívida começou. Logo chegou a próxima mensalidade, juntando com outras e me compliquei”, comenta.

A negociação com os bancos tem sido o único meio encontrado para a quitação. “Estou pagando aos poucos. O processo é lento, mas estou conseguindo. O que não posso fazer é tirar a comida da mesa da minha família para pagar os outros. Além do aluguel, que não posso atrasar para não ser despejado. A crescente nas vendas tem me dado um grande impulso”, afirma.

De acordo com a Serasa, 32,8% dos inadimplentes no Distrito Federal devem bancos ou cartão de crédito. Morador de Valparaíso 2 Pedro Alvez, 72, destaca que sempre foi um bom pagador e nunca deu passos maiores que a perna. No momento em que cedeu seu cartão a dívida foi construída. “Emprestei meu cartão para minha filha e ela fez compras no valor de R$ 13 mil. Eu não vou conseguir pagar isso. Se fosse algo que eu tivesse feito, arcaria com o dinheiro”, explica.

O aposentado explica que tem trabalhado vendendo queijos e dessa forma não será possível pagar uma dívida dessas. “Eu não ganho quase nada com essas vendas. Como vou quitar isso? Infelizmente meu nome vai ficar sujo. Eu não imaginava que chegaria em uma situação como essa”, lamenta.

A PEIC mostra que os principais tipos de dívida são de cartão de crédito, de cheque especial, de carnês e de financiamentos. Segundo a pesquisa do Serasa, o valor total das dívidas no DF é de R$ 9,7 bilhões, com média de R$ 7,6 mil para cada pessoa. Em relação às faixas etárias, os maiores inadimplentes da capital têm entre 41 e 60 anos (38,3%). Em seguida, aparece a população entre 26 e 40 anos (33,3%) e as pessoas com mais de 60 anos (17,6%).

O arquiteto aposentado João Gonçalves, 75, conta que sempre comprou tudo à vista, justamente para evitar entrar em dívidas. Mas tudo mudou após um empréstimo feito em um banco. “Sempre me ligaram oferecendo um valor, nunca aceitei. Até que um dia caí na cantada. O juros que cobravam era absurdo. Até comecei a pagar as parcelas, mas chegou um momento em que desisti e deixei de lado”, informa.

Gonçalves relata que recebeu diversas propostas para sanar o débito, mas o valor pedido é muito maior do que ele pegou. “Dessa forma não dá negócio. Não irei pagar um valor que eu não recebi. Sempre busquei manter minhas finanças em dia, por isso, futuramente pretendo fazer uma negociação, mas esse não é o momento correto. Vou conversar e avaliar isso com meu contador”, analisa.

Vendedor ambulante e pai de quatro filhos, Cláudio Bezerra, 49 anos, cita que suas dívidas começaram a crescer após o uso desenfreado de cartões de crédito. “Foi há três anos. Costumava comprar em várias lojas e, no início, conseguia arcar com as despesas, porém, chegou um momento que não tinha mais condições. A dívida é superior a R$ 15 mil. As finanças viraram uma bola de neve desenfreada”, destaca.

Quitar esses débitos é algo totalmente fora de alcance, pois o valor é alto. Cláudio afirma que até pagou algumas lojas, mas foram poucas. “Algumas empresas fizeram vista grossa quando busquei uma solução. Então, deixei de lado. Usar cartão sem cuidado foi meu maior erro, esse tipo de compra deve ser muito bem planejada para não causar problemas”, ressalta.

Sair do vermelho

Pâmela Ferreira, 36, trabalha como empacotadora em um mercado no Sudoeste, e é outra que está em uma situação de endividamento. A forma que gastou no fim de ano foi o principal vilão para a moradora do Gama. “Gastei muito na ceia de Natal e com roupas. Era algo simples, não parecia grande coisa. Tínhamos outras contas para pagar e, quando juntei com outras dívidas do pessoal da casa, virou um problemão.”

O pagamento do Programa de Integração Social (PIS) e o adiantamento do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), podem ser as melhores soluções para Pâmela aliviar o bolso. “Se tudo ocorrer bem e eu conseguir fazer esses dois saques, eu me livro dessas dívidas. Pretendo estar zerada até março. É quase R$ 2 mil. Minha família tem se desdobrado para sair dessa situação.”

Finais de ano são os momentos nos quais todos devem ficar alertas para não contraírem grandes dívidas. O morador de Ceilândia, Leandro Filho Nascimento, 39, conta que os gastos com eletrodomésticos, roupas, brinquedos e comida foram os principais motivos para o endividamento. “Estou correndo atrás do leite derramado. Além dessas contas, existem algumas de 2008, superando os R$ 3 mil. Sem mencionar a pensão dos três filhos e o aluguel da casa. É muito puxado.”

O pai de família acredita que o governo deveria ter uma atenção nesses casos e fornecer algum auxílio para ajudar a sair dessa situação. “Eu nunca fui beneficiado com nada desse tipo, seria interessante e uma grande ajuda. Estou batalhando para tentar sair dessa situação. Acredito que vou conseguir”, conclui.

Felipe Tavares, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) detalha que o prazo médio de atraso das contas do DF é de 69 dias, sendo o maior grupo de inadimplentes tendo contas em atraso com mais de 90 dias. “Esse resultado é condizente com a raiz da inadimplência brasileira, que é social. Uma vez que o grupo mais vulnerável para se tornar inadimplente é o de menor renda. É natural que o atraso seja presente em mais de um mês, ou seja, maior do que 90 dias. Isso ocorre porque o orçamento apertado possui pouca capacidade de adaptação a imprevistos, de forma que ao entrar na inadimplência, ele demora um pouco mais para sair.”

Por Júlia Eleutério, Mila Ferreira, Luis Fellype Rodrigues do Correio Braziliense

Foto: pacifico / Reprodução Correio Braziliense