Com vacinação em ritmo lento, DF tem alta de 50% nos casos de influenza

Com 48% do público-alvo atingido, vacinação contra gripe caminha lentamente na capital, enquanto casos e mortes pela doença crescem em ritmo acelerado em 2025. Especialistas explicam causas e riscos da infecção

A meta do Distrito Federal é vacinar 90% das pessoas que integram os grupos prioritários como crianças, idosos e portadores de doenças crônicas não transmissíveis contra a gripe (influenza). No entanto, passados cinco meses do início da campanha, apenas 48,48% desse público foi imunizado, de acordo com dados da Secretária de Saúde (SES-DF). O baixo índice preocupa, uma vez que a circulação do vírus influenza tem crescido em ritmo acelerado no DF.

De acordo com o portal Infosaúde, da SES-DF, de  janeiro a agosto de 2025, foram registrados 863 casos da doença, um aumento de 50,35% em relação a todo o ano de 2024, quando ocorreram 574 notificações. O número de mortes chama atenção: de 23 óbitos confirmados em todo o ano passado, o total saltou para 43 neste ano — uma alta de 86,96% em apenas oito meses. Atualmente, a taxa de incidência é de 26,6 casos a cada 100 mil habitantes, considerando a população de 3,23 milhões de pessoas.

A SES-DF afirmou que, até o momento, em 2025, a maior parte dos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) por influenza ocorreu em pessoas acima de 60 anos, seguido pelo grupo das crianças menores de 2 anos de idade e, depois, pelo grupo de pessoas com comorbidades. A pasta verificou que, dos 43 óbitos registrados no período de janeiro a agosto, 40 pertenciam ao público prioritário para imunização. Destes 40, apenas 10 se vacinaram.

O caso da estudante Ana Cecília, de 19 anos, mostra a gravidade da situação. Diagnosticada com asma, ela integra o grupo de risco e, em julho, contraiu influenza. A doença evoluiu para pneumonia viral, e a jovem precisou ser internada. “Se eu tivesse tomado a vacina, provavelmente meu quadro não teria se agravado tanto. Foram semanas difíceis, mas agora estou me recuperando. Assim que estiver totalmente bem, vou me imunizar”, afirma a universitária.

Histórias como a de Ana contrastam com exemplos positivos, como o do casal Manoel Montes, 67, e Rosário de Fátima, 63, moradores de Vicente Pires. Ambos se vacinaram no início da campanha e sentiram os benefícios. “Eu tomei a vacina há três meses e, mesmo pegando gripe depois, tive sintomas leves, como dor no corpo e tosse. Não precisei ser internado. A vacina fez toda a diferença”, relata Manoel. Já Rosário não chegou a adoecer e reforça a importância da prevenção coletiva: “A gente se protege e também ajuda a proteger os outros, porque reduz a transmissão.”

Cristina Massot, 72, também não abre mão da proteção anual. “Sempre me vacino e considero um privilégio ter acesso a esse imunizante no programa nacional. É um ato de responsabilidade com a própria saúde e com a sociedade”, afirma.

Por que se vacinar?

Especialistas alertam que, além da alta circulação do vírus, o período de seca no DF torna o cenário ainda mais preocupante. O infectologista Julival Ribeiro destaca que a baixa umidade prejudica as defesas naturais do organismo, aumentando a vulnerabilidade da população. “A vacinação é imprescindível, especialmente nos grupos de risco. Ela reduz a chance de complicações graves que podem levar à morte. No DF, com a baixa umidade, esse cuidado é ainda mais importante”, explica o médico.

Ele também reforça a necessidade da atualização anual da vacina: “Todo ano a Organização Mundial da Saúde (OMS), em conjunto com os países dos hemisférios Norte e Sul, avalia as cepas do vírus em circulação. Por isso, a vacina precisa ser reformulada. Neste ano, a proteção abrange os tipos H1N1, H3N2 e B do vírus influenza”, explica.

A vacina, além de gratuita, é segura e salva vidas. Como lembra o infectologista, “a imunização não é apenas um direito individual, mas uma responsabilidade coletiva. Cada dose aplicada protege não só a pessoa vacinada, mas toda a comunidade.”

Maior transmissão 

O epidemiologista e professor da Universidade de Brasília (UnB) Jonas Brant afirma que o inverno é o período em que os vírus respiratórios têm maior facilidade de transmissão, já que, devido ao frio, as pessoas costumam frequentar ambientes fechados. No entanto, segundo o especialista, o problema no DF é outro no momento. “Temos a questão da baixa umidade e qualidade do ar. Existe um aumento nas partículas do ar que facilitam a infecção do vírus, pela vulnerabilidade que os pulmões apresentam.”

O clima seco aumenta a necessidade de imunização. “É importante que as pessoas estejam cientes que nesse momento há uma maior circulação do vírus, por isso é fundamental a vacinação, para evitar o agravamento dos casos nesta época do ano”, afirma Brant.

De acordo com o mestre e doutor em medicina tropical e professor de Medicina na Universidade Católica de Brasília (UCB) César Omar, a seca agrava significativamente a circulação de vírus respiratórios, como o da gripe (influenza), e pode levar ao aumento das internações hospitalares. “De fato, nestes últimas semanas temos observado também aumento de casos de covid-19 no DF. Durante o inverno, há uma combinação de temperaturas amenas à noite e calor durante o dia com umidade relativa do ar abaixo de 30% e ambientes mais fechados e secos.”

O médico explica que essa alteração ambiental leva a algumas mudanças no organismo, como o ressecamento de mucosas e comprometimento da barreira protetora. “Assim, os vírus respiratórios têm mais facilidade para invadir o organismo. Outro fenômeno que acontece na seca é que em ambientes com baixa umidade, as gotículas de saliva que expelimos ao falar, espirrar ou tossir ficam suspensas no ar por mais tempo, aumentando a chance de transmissão viral”, completa.

Omar também ressalta que pessoas com doenças alérgicas, como rinite e asma, tendem a apresentar mais crises e, em geral, toda a população fica com maior suscetibilidade a infecções respiratórias, incluindo gripe e bronquite viral. Grupos vulneráveis, como crianças e idosos, são os mais afetados, pois têm sistemas imunológicos mais frágeis. “A baixa cobertura vacinal contra a gripe no DF agrava ainda mais o cenário, deixando a população desprotegida em um momento de alta circulação viral”, conclui.

Dificuldades e estratégias 

A SES-DF reconhece a dificuldade em atrair o público-alvo para os postos de vacinação. Segundo a gerente da Rede de Frio, Tereza Luísa, muitos centros ficam praticamente vazios nos finais de semana, quando são oferecidos plantões para facilitar o acesso da população. “Teve alguns momentos em que chegamos a abrir cerca de 100 postos de saúde, mas parte deles ficava ociosa. Então, foi feita uma análise e definido que, aos finais de semana, cerca de 40 unidades básicas funcionariam em esquema de rodízio. Assim, cada uma abre pelo menos uma vez por mês”, explica.

Mesmo com as dificuldades, o órgão busca novas estratégias para sensibilizar os grupos prioritários. “A Secretaria de Saúde vem traçando diversas ações para alcançar esse público, principalmente porque são justamente as pessoas mais vulneráveis que têm maiores riscos de agravamento e óbito em decorrência da influenza”, acrescenta a gestora.

Uma medida adotada para atingir o público é o Programa Saúde na Escola (PSE), em que equipes do SUS são levadas às escolas públicas do DF para vacinar os estudantes e comunidade escolar. Tereza afirmou que dos 699 centros de ensino público, 208 foram visitados até o momento. “A Secretaria tem levado a vacinação para escolas públicas desde abril, com um calendário de vacinação durante todo o ano para que, pelo menos uma vez no ano, todas as escolas sejam visitadas”, finaliza Tereza.

*Estagiária sob supervisão
de Patrick Selvatti

Quem pode se imunizar?

* Crianças de seis meses a cinco anos;

* Idosos com 60 anos ou mais;

* Gestantes e mulheres no período pós-parto;

* Pessoas com doenças crônicas não transmissíveis;

* Povos indígenas;

* Trabalhadores da saúde;

* População privada de liberdade e funcionários do sistema prisional;

* Professores;

* Profissionais das forças de segurança e salvamento;

* Trabalhadores do transporte coletivo rodoviário, portuários e caminhoneiros;

* Membros das Forças Armadas;

* Funcionários dos Correios.

Os locais de vacinação com horários disponíveis estão no site da SES-DF

Por Resenha de Brasília

Fonte Correio Braziliense      

Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press