Antes de se tornar símbolo do modernismo brasileiro, Brasília existiu de forma provisória. Em meio ao Cerrado, surgiram casas de madeira, hospitais improvisados e vilas operárias que viabilizaram a construção da nova capital.
Um dos primeiros símbolos desse início é o Catetinho, de 1956, primeira residência oficial do presidente Juscelino Kubitschek no novo Distrito Federal. Erguido em novembro de 1956, o projeto de Oscar Niemeyer ficou conhecido como Palácio de Tábuas. De madeira, o espaço abrigou decisões que mudariam o rumo do país. Hoje, transformado em museu, o Catetinho preserva mobiliário original, objetos pessoais de JK e fotografias que ajudam o visitante a testemunhar a grande aventura que foi a construção de Brasília.
Gerente do local há quase dois anos, Everaldo Rodrigues conta que a relação com o espaço é, também, afetiva. “Eu recebi o convite e falei: ‘nossa senhora, eu faço até de graça, porque eu amo o Catetinho’. Eu nasci em Brasília, sou filho de pioneiro e sempre tive proximidade com esses espaços de preservação que contam a história da cidade”, destaca.
Ele observa que o Catetinho tem um papel único na memória da capital. “Aqui era o quartel-general. As maiores decisões eram tomadas aqui. Frequentavam esse espaço Oscar Niemeyer, Bernardo Sayão e Israel Pinheiro. Eles trabalhavam, faziam seresta, tomavam cachaça. O JK não morava aqui, mas quando vinha, pernoitava, descansava e trabalhava. Foi a primeira residência oficial do Brasil (na nova capital).”
Para Everaldo, o museu cumpre uma missão essencial de pertencimento, especialmente para crianças e visitantes de fora. “A metade dos visitantes é de outros estados e quase 2% são estrangeiros. O Catetinho já cumpre essa função de ajudar a entender Brasília e o Brasil”, diz.
A experiência do Palácio de Tábuas vai além do acervo para Everaldo. “Quando você vê o Catetinho de longe, aquele pontinho imponente, parece que ele está ali fiscalizando a cidade. As histórias que estão dentro dele são fantásticas.”
Artani Grangeiro da Silva Pedrosa atua há quase nove anos no Catetinho e trilhou sua trajetória profissional e acadêmica em torno do espaço. “Como museu público, o Catetinho cumpre um papel fundamental na preservação da memória da construção de Brasília. Se antes foi uma casa provisória para o presidente, hoje é um museu-casa voltado para a sociedade, um local onde o passado é reinterpretado e apresentado ao público como experiência viva de memória.”
A edificação também simboliza o começo do projeto de Brasília. “O Catetinho integrou um núcleo pioneiro, que reunia outras estruturas fundamentais para o início da nova capital, como o Catetão (residência provisória 2), uma pista de pouso, a antiga sede da Fazenda Gama e o acampamento onde ficaram os primeiros trabalhadores. Era, portanto, um espaço vivo, de organização e de tomada de decisões.”
Construído em apenas 10 dias, o edifício materializou uma ideia amadurecida. “A rapidez expressava a decisão política de tirar do papel um projeto antigo e fazê-lo acontecer sem demora.” Para Artani, “o Catetinho ajuda a compreender Brasília não apenas como obra de grandes nomes, mas como resultado de um esforço coletivo”.
Candangos
Se o Catetinho representa o poder em sua forma mais provisória, o Museu Vivo da Memória Candanga guarda o cotidiano de quem sustentou esse projeto com o próprio corpo. Instalado onde funcionou o antigo Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira (HJKO), o espaço atende hoje à missão de preservar histórias de trabalhadores que ergueram a capital em uma rotina marcada pela urgência. Tombado em 1985 e reaberto como museu em 1990, o local mantém viva a chama daqueles que ajudaram a erguer a cidade.
“O museu é vital porque transforma a história de Brasília de um conjunto de fatos em uma experiência viva e participativa, essencial para o desenvolvimento cultural e para a formação de uma comunidade mais conectada às suas raízes”, enfatiza Eliane Falcão, gestora do local. “Utilizando o próprio cenário onde a história aconteceu, o museu permite às novas gerações visualizar o cotidiano dos candangos e pioneiros”, explica Eliane.
Ela ressalta que o espaço preserva, não apenas, objetos, mas narrativas humanas marcantes, como a do primeiro diretor do HJKO. “A esposa do doutor Edson Porto vai ao museu com frequência e, ao entrar em sua antiga moradia, se emociona, chora e relata muitas histórias da época da construção”, lembra.
Com 20 casas de candango conservadas, o museu abriga exposições fixas que resgatam a história da capital. Em uma delas, o fotógrafo Joaquim Paiva apresenta, por meio de imagens, suas lembranças de Brasília na década de 1980, oferecendo um olhar pessoal sobre a cidade em formação.
A principal mostra, Poeira, Lona e Concreto, reconstrói o período da construção de Brasília a partir de fotografias, textos, objetos e cenários que remetem ao cotidiano da época. Organizada em diferentes ambientações, reúne desde documentos históricos e projetos de Lucio Costa e Oscar Niemeyer até móveis e acomodações dos pioneiros. Os detalhes da vida de inúmeras famílias ajudam a materializar, para o visitante, a dimensão sociocultural do surgimento da cidade.
Além das exposições, o local disponibiliza diversas oficinas, como pintura, sabonete artesanal e corte e costura. As aulas são de segunda à sábado e as inscrições são por meio das redes sociais do Museu.
Para Eliane, resgatar e manter tudo isso é um compromisso cultural: “O museu não é apenas um depósito de objetos antigos, mas um catalisador de memória e identidade, fundamental para que a sociedade brasiliense compreenda suas origens, valorize sua história e celebre a diversidade de seu povo”.
Visitação
» Museu do Catetinho
Km 0 – BR 040, Gama
Telefones: 3338-8803, 3386-8167
Funcionamento: de terça a domingo, das 9h às 17h
Entrada gratuita
Mais informações no Instagram @museudocatetinho
» Museu Vivo da Memória Candanga
Setor Juscelino Kubistchek, Lote D, Núcleo Bandeirante
Telefones: 3301-3590, 3327-2145, 3301-6641
Programação completa disponível nas redes sociais
Mais informações no Instagram @museuvivodamemoriacandanga
Por Resenha de Brasília
Fonte Correio Braziliense
Foto: Ed Alves/CB/DA Press












