As anotações do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que vazaram logo da primeira reunião para discutir quem apoiar Brasil afora, deixaram muitos aliados do filho 01 de Jair Bolsonaro arredios dentro e fora do PL. É que, ali, ficou claro que o partido não estará disposto a ceder espaço de poder a candidatos de outros partidos. Os apontamentos indicaram, ainda, que, dentro da legenda, quem manda e escolhe candidatos — pelo menos ao Senado — é o ex-presidente, que tem privilegiado apenas aqueles mais próximos. O receio é de que isso se repita na hora de montar as nominatas de deputados federais, uma vez que o número de postulantes de cada partido deve corresponder ao de vagas que cada estado tem na Câmara mais um. Por isso, ninguém se surpreenda se, na janela partidária, muitos deixarem o PL em busca de um lugar mais confortável para tentar um mandato de senador ou de deputado federal.
Os aliados de outras legendas estão muito desconfiados e com receio de serem rifados logo ali na frente. Haja vista a situação no Paraná, onde a pré-candidata ao Senado do Podemos, Cristina Graemil, aliada de Bolsonaro, aparece escanteada nas anotações de Flávio, por causa do risco de “atrapalhar” a candidatura do deputado Filipe Barros, o principal nome do PL para concorrer a uma das vagas de senador no estado.
O caso do Paraná, que envolve o Podemos, não é o único que incomoda. O Progressistas, por exemplo, não engoliu o que ocorreu em Santa Catarina. Ali, o ex-presidente jogou para o acostamento os projetos do senador Esperidião Amin (SC), nome respeitado na política catarinense — ex-governador, ex-deputado federal, e que, no Congresso, ajudou a desvendar escândalos em várias CPIs, inclusive a que investigou o do Banco de Santa Catarina.
Amin perdeu a vaga na coligação do governador Jorginho Mello porque os Bolsonaro insistem na candidatura do filho 02, o vereador carioca Carlos — que, numa jogada forçada, deseja ser senador no Sul do país. Sem qualquer história na política catarinense, a candidatura dele é citada nas rodas de políticos no estado como “um capricho” da família e desejo de um “filhinho de papai”.
No ano passado, o PL ainda cogitou uma chapa com a candidatura de Carlos e de Esperidião Amin, e ia tirar a deputada Caroline de Toni (PL-SC) da corrida ao Senado. Ela ameaçou trocar o PL pelo Novo e o partido, então, lançou o nome da parlamentar e o do filho do ex-presidente ao Senado, rifando o veterano político catarinense. Nas conversas mais reservadas, muitos se perguntam por que Carlos não saiu candidato no Rio de Janeiro, onde a família tem base política. A resposta, segundo aliados, é que o ex-vereador considera mais fácil ser eleito por Santa Catarina.
Outro caso que deixa muitos aliados para lá desconfiados é o do Distrito Federal. Antes mesmo de estourar o escândalo da compra do Banco Master pelo BRB, o PL rifou a pré-candidatura de Ibaneis Rocha (MDB) ao Senado e lançou a deputada Bia Kicis em dobradinha com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
Escanteados
Dentro do PL, o receio é que esse movimento de espirrar aliados para dar espaço aos mais próximos dos Bolsonaro na corrida ao Senado se repita na hora de montar as nominatas de deputados federais. No Distrito Federal, por exemplo, cada partido ou federação só pode lançar nove candidatos à Câmara (o número de vagas são oito mais um). Em Santa Catarina, por exemplo, a legenda pode lançar até 17 nomes. Há uma desconfiança de que, em muitos estados, o clã jogue para escanteio alguns nomes para dar espaço àqueles amigos do ex-presidente e dos filhos que desejam concorrer a um mandato eletivo.
Flávio, porém, terá que convencer pessoalmente os políticos de que não pretende “puxar o tapete” de ninguém. Até aqui, o filho 01 jogou praticamente parado e subiu nas pesquisas de intenção de votos — as mais recentes o colocam vencendo Lula no segundo turno por estreitíssima margem. Nas reuniões com economistas, ele quase não tem falado. Deixa a tarefa para o coordenador da futura campanha, o senador Rogério Marinho (PL-RN), que, aliás, queria concorrer ao governo estadual, mas terminou puxado para organizar a corrida presidencial do senador fluminense.
A partir de agora, avaliam os bolsonaristas, Flávio deverá se apresentar com mais desenvoltura. Seu discurso na Avenida Paulista, no ato convocado pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e pelo pastor Silas Malafaia, serviu para fincar as bases da campanha. Porém, esqueceu-se do irmão Eduardo — que participou por videoconferência, exibida em um telão — ao mencionar um “sempre dissemos que o Supremo Tribunal Federal era fundamental para a democracia”. Foi o filho 03, autoexiliado nos Estados Unidos alegando perseguição política, que declarou numa reunião, na primeira campanha do pai, em 2018, que bastava um jipe, um cabo e um soldado para fechar o STF.
Por Resenha de Brasília
Fonte Correio Braziliense
Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senad












