Nem o céu é o limite para elas: as mulheres que lideram os resgates aéreos no DF

Mulheres alcançam espaço no serviço aéreo do Corpo de Bombeiros do DF e transformam a rotina de resgates nas alturas

Em meio às nuvens e a resgates que desafiam o tempo, mulheres conquistam, pouco a pouco, espaço no serviço aéreo do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal. Hoje, são três pilotas na escala e cinco tripulantes operacionais entre os 184 integrantes, número ainda tímido, mas carregado de significado para quem ajuda a abrir caminho.

A capitã Kirla Pignaton, 33 anos, entrou para a história da corporação ao se tornar a primeira mulher piloto de avião da instituição. O desejo de vestir a farda nasceu cedo. “Sempre foi um sonho de criança”, contou. A aviação, no entanto, surgiu dentro da carreira. “Parecia algo distante, mas, durante o curso de oficial, percebi que era possível. Comecei a estudar e fui atrás”, lembrou. 

Ainda no início da formação, Kirla conquistou a licença de piloto privado e segue avançando em uma trajetória exigente. Os primeiros voos foram no PA-18, aeronave de instrução, seguidos pelo treinamento no Carvan, utilizado em missões aeromédicas e transporte. O próximo desafio será o Air Tractor, voltado ao combate a incêndios. “A formação é longa. Tem que sempre estar estudando, porque no céu não tem acostamento”, brincou.

Carregar o pioneirismo vem acompanhado de responsabilidade. “É uma honra e uma grande responsabilidade motivar outras mulheres. A aviação é para todos, para quem tiver disposição de estudar bastante, treinar, se dedicar”, disse.

A primeira-tenente Danielle Teixeira, 32, também encontrou nos céus uma forma de servir. Bombeira há oito anos, começou como praça e, após a formação de oficiais, retornou ao serviço aéreo como tripulante operacional e piloto de resgate. O interesse surgiu antes mesmo da farda. “Eu via vídeos de resgate e sabia que queria aquilo, mesmo sendo um curso difícil”, ressaltou.

Hoje, celebra o impacto direto do trabalho. “É uma atividade de alto risco, mas extremamente gratificante. A gente vê a diferença que faz na vida das pessoas”, afirmou. Para Danielle, a presença feminina tende a crescer. “As mulheres estão cada vez mais preparadas para cumprir essa missão, e é inevitável que aumente o percentual nas várias áreas que a gente tem na corporação”, disse. Para a tenente, essa diversidade fortalece o trabalho desenvolvido. “Cada vez mais que a gente tenha um público muito heterogêneo, isso contribui porque cada um traz a sua experiência, a sua visão de vida. Isso só melhora o atendimento”, destacou.

Vocação

Com quase 26 anos de corporação, Nilsa de Oliveira, 46, acompanhou de perto essa transformação. Hoje cedida à Casa Militar, ela atuava como pilota de helicóptero e construiu uma trajetória marcada pelo operacional. O interesse pela aviação veio com o tempo, impulsionado pela vivência nas ocorrências. “Sempre gostei da rua, do atendimento direto”, contou. Em 2013, iniciou o curso de pilotagem e, dois anos depois, já voava nas aeronaves da corporação.

Para ela, ver mais mulheres ocupando esses espaços é motivo de orgulho. “Elas têm mostrado que são capazes. Hoje estamos em áreas que antes eram exclusivamente masculinas, como mergulho, aviação e o serviço operacional”, destacou. 

A tenente-coronel Débora Gontijo Cardoso, 41, também buscou na aviação uma forma de ampliar sua atuação. Na corporação desde 2012 e com passagem anterior pela Força Aérea Brasileira (FAB) como controladora de voo, encontrou no serviço aéreo a chance de se aproximar ainda mais do salvamento. “Queria estar mais presente nas missões, participar diretamente do resgate de vidas”, disse. 

Para Débora, o mais importante é que o espaço esteja aberto. “As mulheres precisam estar onde quiserem estar. Aqui, todos estão se esforçando porque escolheram viver essa profissão”, destacou. 

Missão

Entre as tripulações, a primeira-tenente Luiza Calazans reforçou o desejo de crescer dentro da área. Enfermeira e tripulante operacional, ela ingressou na corporação em 2017 e, desde o início, já mirava a aviação. “Era onde eu mais queria chegar”, lembrou. 

O caminho incluiu o curso de tripulante e uma mudança de carreira: deixou o posto de praça para se tornar oficial enfermeira. Hoje, atua nas aeronaves e segue com um objetivo claro. “Eu tenho um objetivo pessoal de ver isso daqui com muito mais mulheres. A gente vê o tanto que as guerreiras que trabalham aqui são determinadas, esforçadas e agregam demais ao serviço”, ressaltou. 

A segunda-tenente Juliana Brito de Araújo, 36, trilhou um percurso semelhante. Entrou como praça e, ainda na formação, decidiu encarar o desafio do curso de tripulante operacional. “Brilhou o olho, mas também era um teste pessoal. É um curso muito exigente”, recordou. 

Atualmente, atua nos resgates e atendimentos pré-hospitalares. O próximo passo já está definido: a cabine de comando. “Estou no processo seletivo e devo iniciar o curso de piloto em breve”, contou. 

Para Juliana, ocupar esse espaço vai além da realização profissional. “É um orgulho estar em uma área majoritariamente masculina e provar que nós também somos capazes de ocupar todos os lugares”, celebrou. A segunda-tenente vê com entusiasmo o aumento da participação feminina na corporação, impulsionado pelos concursos mais recentes. “Me deixa muito feliz, porque nós somos capazes e precisamos de mulheres em todos os lugares. A gente sabe da nossa competência, do nosso trabalho e que isso faz a diferença”. 

Fonte Correio Braziliense
Foto: Ed Alves/CB/D.A Press