Ipês-roxos da capital convidam à reflexão sobre preservação do Cerrado

Mesmo com chuvas inesperadas em junho, árvore típica toma as ruas de Brasília e lembra a beleza e a identidade do Cerrado

Mesmo após chuvas inesperadas este mês, os ipês-roxos não foram impedidos de transformar Brasília em um cenário perfeito para fotos. As árvores de identidade brasiliense florescem durante a seca, entre junho e agosto, e trazem a importância de que a vida acontece fora das telas e que existe beleza no Cerrado. Na Esplanada dos Ministérios e nas superquadras da Asa Norte e Asa Sul, o primeiro desabrochamento de flores começou a acontecer.

A copeira Selma Maria Sousa, 51 anos, estava com o seu companheiro, o motorista Edson Marreiros, 58, na quadra 705 da Asa Sul, onde uma rua cheia de ipês-roxos abriu as flores nesta semana. O casal, morador de Santa Maria, celebrou a chegada da primeira floração: “Eles são lindos, não é? Cada época, uma cor diferente. Gosto muito deles. Os amarelos são os meus preferidos”, comenta. Edson compartilha da opinião. “Para mim, já se tornaram uma referência de Brasília.”

As árvores, que atingem até 30 metros de altura e podem viver por meio século, funcionam como molduras para encontros e resgate de histórias pessoais. Para a publicitária Alessandra Arantes, 53, a floração tornou-se o cenário ideal para celebrar três décadas de amizade com Milton Ferreira, 63, morador de Piracicaba (SP). Ao caminharem pela Catedral de Brasília, o impacto visual das pétalas roxas diante dos traços de Oscar Niemeyer foi imediato.

“Enquanto admirávamos a grandiosidade da obra, avistamos um conjunto de ipês-roxos completamente floridos. O contraste era impressionante: de um lado, as linhas modernas da arquitetura local; do outro, a delicadeza exuberante da natureza”, descreve Alessandra. Moradora de Sobradinho, ela costuma fotografar os ciclos da cidade e guarda os registros como um símbolo do tempo compartilhado entre amigos. “O que mais gosto na floração dos ipês é justamente essa capacidade de surpreender. Eles nos convidam a desacelerar por alguns instantes”, acrescenta.

Segundo a bióloga Ana Carolina Ribeiro, a floração das árvores ocorre por conta do clima do Cerrado, no qual a espécie entra em dormência e reduz a quantidade de energia, o que acarreta na perda das folhas e direciona para que os ipês-roxos floresçam. “Para conseguir diferenciar os tipos de ipês, é necessário vermos as florações, textura, tamanho e os formatos das copas”, afirma a bióloga. 

Vale ressaltar que as chuvas não são os únicos fatores que atrapalham a floração dos ipês-roxos. Ana Carolina esclarece que, embora seja verdade que o clima fora de época afeta a planta adaptada em período de seca, árvores têm condições próprias de funcionamento, de forma que fatores externos também atrasem o aparecimento das flores.

Identidade local

Apesar de não ser uma árvore exclusiva do Cerrado, o ipê representa bem esse ecossistema, que ocupa 100% do território do Distrito Federal. Vitor Sena, biólogo e ecólogo, aponta que a florescência dos ipês é um convite para que a população pense profundamente sobre preservação ambiental e a riqueza do Cerrado. “Essas árvores representam apenas uma parte de um ecossistema complexo, que abriga milhares de espécies de plantas e animais polinizadores”, explica.

Para a recepcionista Telma Sales, 53, os ipês são encantadores. Ela lamenta, porém, que, no lugar onde mora, no P Sul, em Ceilândia, não haja a presença das árvores coloridas. “Só vejo aqui no Plano Piloto. Seria maravilhoso se pensassem em florir mais as outras partes do DF”, diz. 

O especialista Vitor Sena exalta que a natureza presente nos espaços urbanos tem grande impacto socioambiental, fornecendo alimento para abelhas, beija-flores e outros polinizadores, reduzindo o calor, melhorando a qualidade do ar e contribuindo para o bem-estar geral da população. “Os ipês encantam pela beleza, mas sua maior importância está nos benefícios ecológicos e sociais que oferecem durante todo o ano”, ressaltou.

Encantamento

A Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) mantém um programa de arborização contínuo e, apenas entre os anos de 2020 e 2025, plantou 11.215 mudas de ipês-roxos no DF. O cultivo nos viveiros respeita os ciclos da própria terra: as sementes viram mudas e são transferidas para as ruas durante o período chuvoso, entre outubro e março, garantindo que as raízes busquem nutrição profunda antes que o solo rache.

Para quem veio de longe, a árvore nativa do Cerrado encurta distâncias geográficas. O coach Neil Camacho, 56, trocou a umidade de sua terra natal, Costa Rica, pela secura do Planalto Central há quatro anos, quando se estabeleceu em Taguatinga. No último domingo, ao avistar as copas floridas durante um passeio de carro pela Esplanada dos Ministérios, insistiu para que o marido parasse o veículo para uma caminhada.

O visual o transportou imediatamente para o Vale Central costarriquenho, a cerca de 5 mil quilômetros dali, onde a mesma árvore — conhecida por lá no início do ano — também perde as folhas verdes para dar lugar às flores no período menos chuvoso. “Agora que estou longe da Costa Rica, tem um outro significado para mim caminhar pela Esplanada ou qualquer outro lugar em Brasília onde tem ipê. É uma lembrança. Lembro-me da minha infância”, emociona-se Neil.

Para o companheiro, Marcelo Rodrigues, 51, os ipês-roxos são motivo de encantamento imediato. Mesmo com sangue brasiliense, a beleza da floração o emociona. “Eu me surpreendi com esses ipês perto da Catedral. A composição das flores com as silhuetas do monumento me encanta”, revela o funcionário público.

Na sequência, a natureza prepara a transição dos ipês-roxos para os amarelos, de julho a setembro, seguidos pelos tons de rosa e branco, de agosto a outubro.

*Estagiário sob a supervisão de Tharsila Prates. Colaborou Luiz Francisco.

Fonte Correio Braziliense
Foto: Carlos Vieira/CB/DA Press