Em meio à maior crise pública registrada no clã — após a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro revelar ter sido “apunhalada” e “humilhada” pelo enteado, o senador Flávio Bolsonaro (RJ) —, o Partido Liberal, aliados da família e o próprio parlamentar tentam abafar o conflito em meio à pré-campanha dele à Presidência da República.
Flávio divulgou um vídeo nas redes sociais, nessa quinta-feira, no qual responde às acusações da madrasta e faz um pedido de desculpas contraditório. Por sua vez, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, classificou o desabafo de Michelle como liberdade de expressão. E a ex-primeira-dama, em postagem nas redes sociais, afirmou que não existe “briga nem competição” no do grupo político bolsonarista. A publicação foi interpretada como uma tentativa de conter os desdobramentos do episódio.
As declarações da ex-primeira-dama, que imputam ao enteado, inclusive, uma postura misógina, aconteceu em um momento em que o senador ainda tenta se recuperar dos impactos causados pelo caso Dark Horse — as revelações de que ele pediu R$ 134 milhões ao dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, para, supostamente, financiar a cinebiografia do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Em vídeo de quase meia hora, postado na quarta-feira à noite, Michelle disse ter sido surpreendida pela postura de Flávio durante uma conversa telefônica, no fim do ano passado.
“Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou ao telefone. Disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado nessa quinta-feira e não entendia nada de política”, relatou. “Diante dessa humilhação, respondi que tudo bem. Entendi que ele não queria o meu apoio ou que este era insignificante e, então, eu me recolhi. Fiquei na minha e assim permaneço”, acrescentou.
A ex-primeira-dama classificou o episódio como uma “punhalada” e relacionou o conflito às discussões sobre alianças políticas no Ceará, incluindo apoio ao ex-governador Ciro Gomes.
Também em vídeo, divulgado nessa quinta-feira, Flávio negou ter humilhado a madrasta. “Em nenhum momento ofendi ou tive a intenção de ofender a Michelle. Se o fiz em algum momento, mais uma vez, peço desculpas”, disse. “Eu nunca humilhei uma mulher na minha vida. Sou casado há 16 anos, pai de filhas maravilhosas. Nunca desrespeitei, maltratei ou humilhei uma mulher na minha vida. Eu jamais faria isso com a esposa do meu próprio pai”, argumentou.
O parlamentar também fez elogios à atuação da ex-primeira-dama como presidente do PL Mulher, e reconheceu seu papel dentro do bolsonarismo. “Tenho respeito por ela. Reconheço o trabalho dela no PL Mulher, o recorde de filiações femininas, o trabalho com surdos, pessoas com doenças raras, pelo cuidado com meu pai e por tudo o que ela representa para o Brasil”, afirmou.
Ao longo da gravação, Flávio insistiu que o conflito não representa uma ruptura política. “É natural que, de vez em quando a gente enxergue caminhos diferentes para chegar no mesmo lugar. Divergência de estratégia não significa divergência de princípios”, disse.
O parlamentar ainda procurou reforçar ter apoio do ex-presidente. “Estou cumprindo uma missão designada por Jair Messias Bolsonaro. Todas as minhas decisões sempre são tomadas com o respaldo dele”, enfatizou.
Horas antes da manifestação do enteado, Michelle publicou uma mensagem negando conflitos dentro do partido. “Para ficar claro: eu não tenho raiva de ninguém. Apenas esclareci uma situação que estava sendo deturpada. Vamos todos trabalhar juntos para derrotar o atual desgoverno. Não há briga nem competição”, escreveu.
Imbróglio no Ceará
A crise tem origem em uma disputa política no Ceará que se arrasta há meses. Michelle defende a candidatura do senador Eduardo Girão (Novo-CE) ao governo estadual e trabalha para viabilizar a vereadora Priscila Costa (PL-CE), vice-presidente nacional do PL Mulher, como postulante ao Senado.
Flávio, por outro lado, apoiou a articulação liderada pelo deputado federal André Fernandes (PL-CE) para que a vaga ao Senado fique com o deputado estadual Alcides Fernandes (PL-CE), pai do parlamentar.
Segundo fontes ouvidas pela reportagem, o conflito se agravou a partir de 15 de junho, quando Flávio teria comunicado que Priscila não teria espaço na chapa apoiada pelo partido e que Alcides seria lançado oficialmente como pré-candidato ao Senado durante um evento marcado para Fortaleza em 10 de julho.
Michelle, que vinha sendo pressionada para se engajar mais diretamente na pré-campanha presidencial de Flávio, sinalizou a aliados que participaria do evento no Ceará. Nos bastidores, porém, a expectativa era que a viagem servisse para fortalecer a pré-candidatura de Priscila Costa, o que não ocorreu.
Uma fonte próxima à senadora Damares Alves relatou ao Correio que Michelle havia gravado os vídeos dias antes da publicação e aguardava apenas o momento considerado politicamente mais adequado para torná-los públicos.
Conversa
A repercussão da crise levou lideranças do PL a entrarem em campo para tentar reduzir os danos políticos. Em nota, Costa Neto afirmou que divergências são naturais em um partido político e não comprometem a unidade do grupo.
“Divergências fazem parte de qualquer ambiente vivo, plural e comprometido com ideias. Elas não nos enfraquecem; ao contrário, nos tornam mais maduros”, afirmou o presidente do PL. Ele também declarou que pretende conversar pessoalmente com Michelle e Flávio antes de fazer uma avaliação definitiva do episódio.
O senador Izalci Lucas (PL-DF) seguiu a mesma linha. Em entrevista ao Correio, classificou o caso como uma “questão de família” e afirmou que o impasse será superado. “Acho que será resolvido rapidamente. Isso acontece em qualquer família, em qualquer partido”, frisou.
Em conversas reservadas com o Correio, interlocutores ligados ao bolsonarismo confirmam as alegações narradas por Michelle. Ao mesmo tempo, parte dos aliados ressaltou que as revelações ocorrem no momento em que Flávio busca construir pontes com o eleitorado feminino, segmento em que enfrenta dificuldades maiores do que outros nomes do campo conservador.
Até o fechamento desta reportagem, Ciro Gomes não havia se manifestado publicamente sobre o episódio.
Fonte Correio Braziliense
Foto: Wilton Junior/Estadão Conteúdo












