Diante de um dos confrontos mais simbólicos da Copa do Mundo de 2026, o clima de expectativa tomou conta do Festival do Japão, realizado entre sexta-feira (26/6) e domingo (28/6), no Pavilhão de Exposições do Parque da Cidade, em Brasília. O evento, que celebra o Dia da Imigração Japonesa no Brasil, comemorado em 18 de junho, reuniu milhares de visitantes para homenagear a cultura oriental, mas também acabou se transformando em um verdadeiro termômetro para medir a torcida antes da partida entre Brasil e Japão nesta segunda-feira (29/6), às 14h (horário de Brasília), no Estádio de Houston, no Texas. Este será o primeiro encontro entre as seleções em uma fase eliminatória de Copa do Mundo. Em meio às apresentações culturais, gastronomia típica e estandes repletos de referências japonesas, uma pergunta era inevitável: para quem vai a torcida?
Entre os japoneses, a preferência estava clara, mas os descendentes, filhos, netos e bisnetos de japoneses, vivem um dilema comum. Ao mesmo tempo em que preservam as tradições da família, cresceram no Brasil e carregam um carinho especial pela Seleção Brasileira.
A assessora executiva Kelli Wagatuma, 41 anos, resume bem esse sentimento: “Meu pai é japonês e minha mãe é brasileira, então meu coração está meio-a-meio ali. O que vencer para mim está ótimo”. Apesar da divisão, ela aposta em uma revanche do amistoso disputado no ano passado, quando o Japão venceu o Brasil por 3 a 2. “Eu acho que vai ser um jogo difícil, mas vou apostar em 3 a 2 para o Brasil”, disse.Play Video
A funcionária administrativa Ayane Senda, 25, também admite que escolher um lado não é simples. “Como sou japonesa, eu confio no Japão. Mas o Brasil ensinou como vencer no futebol”, ponderou. Para ela, independentemente do resultado, o confronto representa o encontro de duas seleções que merecem respeito: “Está dividido”.
Nem todos, porém, enfrentam esse conflito. Há dois anos morando no Brasil, o funcionário público japonês Fumito Komatsu, 34, mantém a confiança na seleção de seu país. “Como o Japão venceu o Brasil no amistoso do ano passado, espero que também ganhe esse. Meu palpite é 2 a 1 para o Japão”, apostou.
Já o contador Mario Matsunaga, 24, quarta geração de descendentes japoneses, encontrou uma forma curiosa de conciliar as duas paixões: “Eu vou torcer para o Brasil, mas espero que seja um jogo bom. Um 3 a 2, aí todo mundo fica feliz”. Mario ainda destaca o bom momento da equipe japonesa e espera que Neymar possa voltar a atuar. “Espero que o Keito Nakamura jogue muito bem e que o Neymar volte”, projeta.
Enquanto os descendentes equilibram sentimentos, muitos brasileiros demonstram confiança na classificação. O servidor público Renato de Santana, 46, visitava a feira acompanhando a esposa e a filha, fã da cultura japonesa. “A expectativa é de um jogo duro, porém meu palpite é 3 a 1 para o Brasil”, sugere.
O carinho pelo Brasil também aparece entre quem sequer nasceu no país. O economista peruano Christian Gutierrez, 38, mora há apenas sete meses em Brasília. Mesmo encantado com o Festival do Japão, ele diz que sua torcida será verde e amarela. “Eu gosto muito do Brasil. As pessoas aqui são muito gentis com os estrangeiros, e sinto que tenho que apoiar o Brasil”, destaca. Seu palpite é otimista: “Acho que o Brasil ganha por 4 a 2”.
Solidariedade e união
Os vídeos dos torcedores japoneses limpando os estádios da Copa conquistaram o mundo com suas demonstrações de solidariedade e união. No DF, a situação não é diferente. Emi Ikeda, 21, cujo nome brasileiro é Tarsila de Oliveira, relata que sua relação com a ancestralidade japonesa tem papel profundo em sua formação social. “Minha ascendência vem da parte da minha mãe. Viemos pra Brasília justamente por conta dela, mas, infelizmente, ela faleceu em 2016. Desde então a minha relação com amigas e amigos nipo-brasileiros existe para preencher esse espaço”, conta ela.
Apesar da metade brasileira, Emi não esconde a euforia quando o assunto é a seleção da terra do sol nascente. “Eu assisti ao jogo contra a Suécia e não lembrava que me empolgava tanto com cada lance! Eu quero muito ver o jogo com meus amigos em algum bar, mas acho que, se o Japão fizer um gol, não sei se vou conseguir segurar a comemoração”, contou. Ainda assim, a estudante de antropologia diz que acredita na vitória do Brasil por 2 a 1.
O salto de qualidade na equipe do Japão é motivo de apreensão para os torcedores brasileiros, o que não surpreende, já que a cultura do futebol moderno de lá foi revolucionada por Zico. O lendário ídolo do Flamengo foi jogar no Kashima Antlers em 1993 e deixou seu nome marcado na história do futebol asiático. Além das atuações dentro de campo, o galinho de quintino comandou a seleção japonesa entre 2002 e 2006, conquistando a Copa da Ásia de 2004 e classificando o país para a copa do mundo dois anos mais tarde.
A filosofia de Zico moldou o estilo de jogo japonês e os resultados já são visíveis. No último amistoso contra o Brasil, o Japão levou a melhor por três a dois. Todavia, as condições já não são as mesmas. Com novos jogadores no elenco brasileiro e baixas no time asiático, o embate tende a ser mais difícil dessa vez. “Eles são muito bons, mas no segundo tempo o nível cai bastante. Acho que 60% da minha torcida vai pro Brasil e 40% pro Japão”, acrescentou Ikeda.
Mas também há quem esteja confiante na equipe da terra natal. Takashi Sugiura, 48, é proprietário do grupo Umami de restaurantes e mora no Distrito Federal há 13 anos. “Nosso conceito é divulgar uma variedade da comida japonesa que o brasileiro está acostumado”, disse ele. Nascido em Tóquio, ele se mantém firme na esperança de um novo triunfo nipônico no mundial. “Se o Brasil fizer gol? Espero que não aconteça. Prefiro evitar”, disse o cozinheiro, que acompanhará a partida diretamente da embaixada do Japão no Brasil, a convite do próprio embaixador.
Sugiura palpitou em um placar final de dois a um para o Japão. “Temos alguns astros no elenco, como o Kubo Takefusa, mas nossa maior vantagem é o coletivo, nossa organização”, comentou. Como dono de restaurante, ele relata receber visitas nipo-brasileiras de múltiplas localidades em seus restaurantes. “Não sou muito conectado com meus parentes japoneses, mas muitos clientes com ascendência japonesa frequentam o Umami, até mesmo pessoas que vêm de fora de Brasília”, relatou.
Takashi também reiterou a importância da união dos jovens nipo-brasileiros. “É muito bom que os mais novos se ajudem e criem esses laços e reforcem essa relação entre Brasil e Japão”, afirmou. Dentre os points favoritos de Brasília, o chef destacou o karaokê no clube nipo-brasileiro.
Histórico favorável
O confronto desta segunda-feira também coloca frente a frente duas seleções que já escreveram capítulos importantes na história do futebol. O retrospecto favorece amplamente o Brasil. Em 15 jogos oficiais, a Seleção Brasileira venceu 12 vezes, empatou duas e perdeu apenas uma. O único triunfo japonês aconteceu justamente no amistoso disputado em outubro de 2025, quando o Japão venceu por 3 a 2 de virada. Em Copas do Mundo, os dois países se enfrentaram apenas uma vez. Foi na fase de grupos do Mundial de 2006, na Alemanha, quando o Brasil venceu por 4 a 1. Na ocasião, a seleção japonesa era comandada pelo ídolo brasileiro Zico.
Agora, 20 anos depois, o reencontro ganha um peso ainda maior. De um lado, a tradição de uma das maiores seleções da história. De outro, uma equipe japonesa cada vez mais competitiva. O Brasil é o país com o maior número de japoneses fora do Japão, e a paixão entre as duas culturas é algo a ser celebrado dentro e fora do campeonato mundial.
*Estagiário sob supervisão de Patrick Selvatti
Fonte Correio Braziliense
Foto: Giovanna Kunz/CB/DA Press












