Você conhece o baru? A castanha de baru é uma oleaginosa nativa do Cerrado brasileiro, com sabor semelhante ao do amendoim e alto valor nutricional. Rica em proteínas, fibras, ferro, zinco e gorduras insaturadas, como os ômegas 6 e 9, ela contribui para a saúde cardiovascular, auxilia no controle do colesterol e fortalece o sistema imunológico. Geralmente, é consumida torrada e sem casca.
Considerada um superalimento, a castanha de baru vem conquistando espaço no mercado nacional e internacional. A crescente demanda, aliada ao seu elevado valor comercial, faz da cultura uma alternativa promissora de geração de renda para produtores rurais do Cerrado.
O fruto é produzido pelo baruzeiro, árvore nativa do bioma. Atualmente, a maior parte da produção, no entanto, ainda depende da coleta extrativista em áreas naturais, o que resulta em safras irregulares e imprevisíveis, insuficientes para atender ao aumento da demanda. Esse cenário evidencia a necessidade de desenvolver sistemas de produção comerciais mais eficientes e sustentáveis.Play Video
Com esse objetivo, a Embrapa Cerrados, no Distrito Federal, vem testando novos sistemas de cultivo em consórcio que integram o baruzeiro ao cafeeiro irrigado e a culturas anuais e bianuais de ciclo curto. Implantados há quatro anos, os experimentos são conduzidos pelo pesquisador Tadeu Graciolli, responsável pelo desenvolvimento do Sistema Filho – Fruticultura Integrada com Lavouras e Hortaliças. A proposta busca antecipar a produção do baru, diversificar a renda do produtor e tornar o cultivo da espécie economicamente mais viável.
Segundo Tadeu Graciolli, faltam sistemas de produção comerciais eficientes para essa espécie nativa do Cerrado. Para o pesquisador, um dos principais entraves para a expansão da cultura é o longo ciclo de desenvolvimento do baruzeiro. A árvore, de porte arbóreo e crescimento lento, leva de oito a 10 anos para atingir seu potencial produtivo, o que torna o cultivo comercial pouco atrativo para muitos agricultores.
Foi esse desafio que motivou o desenvolvimento de um sistema de cultivo consorciado. “Fomos estimulados a pesquisar soluções tecnológicas para o plantio do baruzeiro em consórcio com uma cultura agronômica que já tivesse um modelo de produção mais consolidado e que fosse capaz de entrar em produção em menos tempo”, afirma.
Nesse contexto, o café surgiu como a alternativa mais promissora. “Pensamos no café, porque o Distrito Federal reúne condições climáticas favoráveis ao desenvolvimento da cafeicultura irrigada. O DF possui cerca de 500 hectares plantados, e a cultura já está consolidada no bioma, onde o clima e a altitude favorecem a produção de cafés de alta qualidade”, explica Graciolli.
O experimento
Os experimentos são realizados em uma área de 3.500 metros quadrados nos campos experimentais da Embrapa Cerrados, onde foram implantados dois modelos de cultivo consorciados: um em linha simples (LS) e outro em linha dupla (LD). Segundo o pesquisador Tadeu Graciolli, o espaçamento entre as plantas de baru e de café é o mesmo nos dois sistemas. A diferença está na disposição das espécies. No sistema de linha simples, o baruzeiro é plantado na mesma linha dos cafeeiros. Já no sistema de linha dupla, uma linha de baruzeiros é inserida entre cada duas linhas de café.
Ao todo, os pesquisadores avaliam 10 clones de baru e três variedades de café arábica, com o objetivo de identificar os materiais mais produtivos e mais adaptados ao cultivo consorciado. As mudas de baruzeiro foram plantadas entre janeiro e fevereiro de 2022, enquanto os cafeeiros foram implantados entre fevereiro e março do mesmo ano. No sistema de linha dupla, a irrigação é feita por microaspersão, o que também permite a mecanização da colheita do café.
Os resultados iniciais dos experimentos são promissores. A primeira safra de café foi colhida em maio de 2024, com produtividade média de cerca de 40 sacas por hectare. Já os baruzeiros apresentaram um desenvolvimento muito mais rápido do que o observado na natureza: pouco mais de quatro anos após o plantio, nove árvores já haviam florescido e começado a produzir frutos, enquanto, em condições naturais, a espécie leva entre sete e 10 anos para iniciar a produção.
Ainda segundo o pesquisador, esse desempenho é resultado do manejo integrado do sistema, que inclui irrigação, controle de plantas invasoras e adubação das culturas consorciadas. Embora o baruzeiro não receba irrigação nem fertilização diretamente, ele aproveita a água e os nutrientes residuais destinados ao café e às culturas de ciclo curto.
Além dos cafeeiros, o sistema integra culturas anuais e bianuais de ciclo curto, que aproveitam a infraestrutura de irrigação já utilizada pelo café. Colhidas em poucos meses, essas culturas geram renda desde os primeiros anos de implantação e ajudam a compensar os investimentos feitos no plantio do baruzeiro e do cafeeiro. Os resultados obtidos até o momento apontam boa produtividade tanto das culturas anuais quanto dos cafezais.
Segundo o pesquisador, essa é uma das principais vantagens do sistema integrado. Ao reunir diferentes culturas em uma mesma área, o consórcio entre baru, café e espécies de ciclo curto amplia a diversificação da produção e fortalece a sustentabilidade econômica da propriedade. “As culturas de ciclo curto vão proporcionar giro financeiro enquanto o baru ainda não entra em produção. Isso favorece o pequeno produtor rural para que ele consiga viver da exploração agrícola”, afirma.
Assim, o sistema foi concebido para garantir retorno econômico em diferentes horizontes de tempo: as culturas anuais e bianuais geram renda no curto prazo, o café no médio prazo e o baru no longo prazo, criando uma estratégia de produção mais equilibrada e rentável para o agricultor.
Eficiência
Além de antecipar a produção do baru, o sistema aumenta a eficiência no uso de água e insumos, diversifica a produção e fortalece a sustentabilidade econômica da propriedade. “São produzidos diversos produtos numa mesma área, o que traz sustentabilidade econômica. Isso favorece o pequeno produtor rural para que ele consiga viver da exploração agrícola”, destaca Graciolli.
Nos próximos anos, a equipe continuará acompanhando a produtividade do café e o desenvolvimento dos baruzeiros, além de selecionar as plantas mais produtivas e de crescimento mais rápido. A expectativa é de que, no futuro, o sistema sirva como modelo para o cultivo comercial do baru e contribua para tornar a espécie uma alternativa agrícola rentável para produtores do Cerrado.
Fonte Correio Braziliense
Foto: Tadeu Graciolli











