Da memória à tela: cineastas de Brasília brilham em festivais

Tendo a capital dos anos 1980 como cenário, o premiado filme de estreia de Anne Pinheiro Guimarães, Pequenas criaturas, apresenta Carolina Dieckmann como protagonista. Também repleto de dilemas femininos, longa de Ceilândia rendeu recente prêmio internacional para Denise Vieira

Os amplos espaços, as esplanadas e os monumentos, tudo isso traz uma memória afetiva cintilante e permanente à mente da diretora Anne Pinheiro Guimarães, que, entre prêmios e constantes deslocamentos internacionais, não segreda: “Eu amo Brasília. A cidade é um espaço emocional, um lugar onde tudo é muito impregnado pelas minhas lembranças, um lugar onde o passado e o presente convivem em tudo”. 

Impulsionada pela busca de equilíbrio entre delicadeza e rigor, Anne se empenhou no desenvolvimento do longa-metragem Pequenas criaturas, vencedor de melhor filme (pela Première Brazil, no Festival do Rio) e concorrente a prêmio de primeira realização, em segmento do Festival Internacional de Gotemburgo (Suécia). O longa, que está em exibição nas salas de cinema da capital, tem como protagonista Helena (Carolina Dieckmann) e resultou de uma imersão em reflexões sobre a condição feminina e abordagens universais. 

“Eu nasci em Brasília, depois, voltei para a cidade com 8 anos, a idade do personagem do Dudu (na tela, Lorenzo Mello), e morei aqui até os 15 anos, idade do personagem do André (Théo Medon). Fiquei pensando em tudo que acontece com uma criança nesse período, nos anos 1980, tão formador de quem a gente se torna mais tarde”, pontua a diretora.

Na trama do filme, pesa uma carga de solidão, habitualmente, atribuída à rotina da Brasília dos anos de 1980. “Trouxe para a tela a ideia de uma mulher que toma um susto quando seu marido parte numa viagem a trabalho deixando ela ali, numa cidade nova, com dois filhos e a sala ainda cheia de caixotes de mudança; tudo por resolver. Isso desperta nela um grande questionamento sobre as escolhas e suas vontades”, adianta Anne Pinheiro Guimarães.

Da Ceilândia para o mundo

Com o longa-metragem Sabes de Mim, Agora Esqueça, a diretora de cinema Denise Vieira colocou Ceilândia em evidência ao vencer uma categoria do Festival International de Cinéma de Marseille, na França, há poucos dias. “No filme, tratamos de um lugar distópico, em tempo indefinido, e partimos de uma pesquisa que fiz sobre prostitutas no período da construção de Brasília. Usamos hibridismo na construção das personagens, com as atrizes trazendo experiências e desejos delas para as personagens, na base da fantasia”, revela a cineasta, em entrevista ao Correio.

Doze anos depois de filmar o primeiro curta, Meio-fio, Denise Vieira segue trabalhando com constância em direção de arte. Na semana passada, integrou a equipe do curta Máquina Humana, que retrata uma “epidemia de dança em uma escola” e exige da diretora de arte um tom fantástico. Diante de desafios como esse, de que forma Denise encara o trabalho como cineasta na capital? “É uma luta constante, principalmente porque não sou só diretora, sou produtora. Trago o desafio da concentração de atividades, de correr para captar patrocínio e de fazer tudo, até investir na divulgação”, conta.

Aos 46 anos e formada em arquitetura, a brasiliense Denise explica que não estudou especificamente cinema, mas aprendeu na prática, quando se mudou para Ceilândia, em 2012, e firmou parceria com o premiado cineasta Adirley Queirós (de A Cidade é Uma Só? e Branco Sai, Preto Fica). Adirley está no time dos produtores executivos de Sabes de Mim, Agora Esqueça, a premiada ficção científica em que, num lugar de resistência, as personagens das estreantes Cida Souza, Pietra Sousa e Aysha Layon têm superpoderes.

“Existiu uma imagem, talvez a única de arquivo, feita das mulheres (profissionais do sexo) pioneiras na cidade. No filme, elas atravessaram tempos e chegam a uma era indefinida, em que mulheres são impedidas de estar nas ruas”, adianta a diretora.

Na busca de um registro realista, o filme abre campo para a falta de pudores nas personagens. “Tratamos de nossos desejos de uma maneira aberta, sem nos preocupar com o olhar do outro, num campo de fantasia e de realização”, observa Denise. (RD)

Entrevista com Anne Pinheiro Guimarães, cineasta 

O que você fazia em Brasília, no anos 1980? Quais eram teus programas, diversões…

Ah… eu fazia muita coisa! E muitas coisas diferentes porque a gente muda muito entre os oito e os 15 anos. São anos realmente formadores. Eu ia pra escola, dormia muito na casa das minhas amigas, fazia muito esporte, ia ao cinema no Cine Brasília, videoclube, via muito filme em VHS, depois era muita festinha, depois passei a ir a shows de bandas locais, etc. Muita coisa.

Como foi preparar o projeto para o filme Pequenas criaturas?

Pequenas criaturas é um filme muito pessoal, é inspirado nas minhas memórias e que trata de assuntos que me são muito caros, de sentimentos delicados e universais. Comecei a pensar nessa história depois que tive minha primeira fi-lha. Pensei na maternidade e na minha mãe (que eu já tinha perdido). Comecei a pensar nela não só como mãe, mas também como mulher. E, tendo uma filha, comecei a pensar na minha infância e do amadurecimento.

A liberdade, que reflete no filme, foi um bem conquistado e herdado de família? De valores cultivados, digo?

A liberdade em todos os sentidos – de pensamento, de independência (emocional e financeira), e como soberania – sempre foi tratada como um valor supremo na minha família, particularmente pelo meu pai. A liberdade, junto com a lealdade e a honestidade, pautaram a vida dele e pautaram a forma como ele educou os filhos. 

Como aplica o interesse por história em seu cinema?

Eu fui estudar história (na França) querendo fazer cinema, mas sentindo que eu precisava aprender muito sobre o mundo, entender melhor o mundo. História me deu muito isso, essa compreensão mais ampla dos grandes movimentos políticos e sociais. Além de história, me interesso profundamente por literatura, que atinge a experiência profunda do que ser no mundo.

Fonte Correio Braziliense
Foto: Bananeira filmes/ Divulgação