— Estou chegando.
Em Brasília, “chegando” é menos uma informação do que uma promessa. Às vezes, é uma esperança, mas, em alguns casos, uma ficção.
A mensagem aparece na tela enquanto a pessoa ainda procura a chave de casa, ou toma banho, ou escolhe a roupa. Ou, em uma demonstração de sinceridade que merece reconhecimento, ainda está deitada, olhando para o teto e calculando se existe alguma possibilidade física de cumprir a própria palavra.
Mas a capital permite esse tipo de elasticidade verbal. Aqui, “estou chegando” pode significar muitas coisas. Pode significar que o carro já saiu da garagem, que o motorista acabou de entrar no Eixão, que a pessoa está na altura da Rodoviária ou que ainda está no outro extremo do Distrito Federal, mas, em sua defesa, já chamou o transporte por aplicativo que está a caminho.
A culpa, em parte, é da distância. Brasília não foi feita para encontros rápidos. Ninguém marca alguma coisa “ali na esquina”. E não é por que não há esquina, mas porque não há, na maioria das vezes, a possibilidade de descer e andar cinco minutos até o destino. Há eixos, tesourinhas, retornos, balões, acessos, viadutos, estacionamentos e uma sucessão de referências que só fazem sentido para quem nasceu, cresceu ou sofreu o suficiente nesta cidade para aprender a se orientar por elas.
A resposta pode esconder uma jornada de 40 quilômetros. E pode ser justamente por isso que o brasiliense desenvolve uma relação tão particular com o tempo. O compromisso está marcado para as 19h. Às 18h20, alguém avisa que já está saindo. Às 18h45, informa que está chegando. Às 19h10, manda um “tô quase aí”. Às 19h25, aparece com a expressão de quem acaba de atravessar uma fronteira internacional. Ninguém parece considerar que tenha mentido. Em Brasília, chegar é um processo, uma ideia, um horizonte.
A cidade nos ensina que existe um intervalo considerável entre sair e estar presente. O corpo pode estar em movimento, mas ainda não chegou. O carro pode estar estacionado, mas a pessoa ainda precisa atravessar um estacionamento que parece ter sido projetado por alguém que detesta encontros. Pode-se estar dentro do prédio e ainda faltar o elevador. Pode-se estar no elevador e ainda faltar o andar. Pode-se estar no andar e ainda faltar descobrir qual das portas é a certa.
Por isso, talvez o “estou chegando” seja uma das frases mais honestas que o brasiliense pronuncia.
Afinal, estamos sempre chegando. Ao trabalho depois de atravessar a cidade, em casa depois de passar horas no trânsito, a um restaurante em que a reserva já venceu, a uma festa quando os primeiros convidados foram embora e os últimos ainda não decidiram se vão.
Brasília é uma cidade que nos convence de que a chegada é um destino permanente. Talvez porque tudo aqui pareça distante e a cidade tenha sido planejada para carros, mas a vida insista em acontecer no tempo humano. Ou porque, entre uma região administrativa e outra, entre um bloco e outro, entre um compromisso e outro, exista sempre uma distância suficiente para repensar a vida. Quem sabe, para desistir do compromisso.
— Estou chegando.
Há nessa frase uma espécie de pacto coletivo: quem pergunta sabe que talvez demore; quem responde sabe que não está exatamente chegando. Mas os dois lados entendem que é preciso manter a conversa em movimento. Em outras cidades, “estou chegando” é uma coordenada, mas, em Brasília, é um estado de espírito.
A gente está sempre chegando. Nesta cidade imensa, espaçada, planejada e cheia de caminhos que parecem levar a algum lugar — embora alguns levem apenas a outro retorno — chegar talvez seja menos estar lá e mais continuar tentando.
Fonte Correio Braziliense
Foto: Carlos Vieira CB/DA Press.











