Do Lago Paranoá ao Mundial de Canoa Havaiana, em Singapura

Dezenas de atletas do DF, de diferentes categorias, participam da competição internacional de canoa havaiana, em Singapura, de segunda-feira (17/8) a 31 de agosto. Campeonato terá mais de 3 mil competidores, de cerca de 30 países

A força das remadas do Lago Paranoá vai cruzar o oceano para ganhar o mundo. De segunda-feira (17/8) a 31 de agosto, dezenas de atletas do Distrito Federal desembarcam em Singapura para a disputa do Campeonato Mundial de Canoa Havaiana (Va’a). A competição reúne mais de 3 mil esportistas de cerca de 30 países. Na bagagem, as equipes brasilienses levam não apenas a busca por pódios, mas histórias marcadas por disciplina na maturidade, redes de apoio femininas e o esforço individual para custear o sonho internacional.

A representatividade da capital abrange diferentes categorias, da masculina à feminina, passando pelas divisões Master 40 e Master 50. Entre os destaques masculinos está a equipe Super Kongs, formada exclusivamente por atletas com 50 anos ou mais. Tricampeões brasileiros (2022, 2024 e 2026), eles buscam repetir no continente asiático o sucesso de participações anteriores em Londres e no Havaí.

Com preparação independente no Minas Brasília Tênis Clube, os próprios integrantes financiam quase a totalidade dos custos. “Existe o programa Compete, que oferece auxílio aos atletas. No entanto, o benefício não contempla todos, e a maioria precisa arcar com os custos com recursos próprios. É um esforço individual de cada atleta”, pondera Glaucio Faria, porta-voz dos Super Kongs, ao ressaltar a rotina de treinos que se assemelha às provas de 100 e 200 metros rasos do atletismo.

A delegação do Distrito Federal ganha respaldo institucional com a presença de dirigentes e atletas experientes. A atleta e vice-presidente da Federação Brasiliense de Va’a (FEBVAA), Renata Maffini, também estará na água em Singapura e destaca a relevância do contingente local. “Brasília estará representada por 79 atletas de diversas categorias que treinam e competem por diferentes clubes e bases de canoagem. No Brasil, os classificados para o Mundial são aqueles ranqueados no Campeonato Brasileiro — que em 2026 inclusive foi sediado na capital — trazendo esportistas de diversos estados”, detalha Maffini.

O número expressivo de representantes reforça o papel do Quadrilátero Crítico no mapa da canoagem global. Com representantes locais divididos em modalidades individuais (V1) e coletivas (V6 e V12), Brasília disputará medalhas em praticamente todas as faixas etárias, desde a Elite e Open até as categorias Master 40, 50, 60 e 70, no masculino e no feminino. “O Brasil vem se destacando cada vez mais no cenário mundial e os atletas de Brasília são diretamente responsáveis por parte desses bons resultados”, conclui a vice-presidente da federação.

Renascimento

A jornada para Singapura também carrega um forte sentido de transformação pessoal para as atletas femininas. A servidora pública Andreia Paula de Freitas Lopes, 52, e atleta da base Scheidt, que atua no comando da troca de remadas (banco 3), descobriu a modalidade há três anos e meio, quando buscava alternativas para combater o estresse e os efeitos da menopausa.

“Estava vivendo um período de muito estresse e olhar fotos do esporte ao ar livre me despertou a vontade de experimentar. A menopausa já me fazia perder o sono e o juízo com alterações de humor. A canoa trouxe uma melhora na minha vida profissional, aumento da concentração e do desempenho. Ficou até mais expansiva e feliz”, relata.

A atleta destaca ainda a dimensão coletiva e inclusiva da prática nas águas. “Em uma canoa, cada banco tem seu papel e é o conjunto que a faz deslizar. É como uma equipe de trabalho. Somos uma ‘Ohana’, palavra da cultura polinésia que significa família. Esse esporte é um mundo que acolhe quem quer competir e quem busca apenas bem-estar físico e mental. Quando soube da convocação, senti orgulho de me tornar atleta na maturidade, mostrando que nunca é tarde para começar algo novo”, celebra.

A força feminina

As equipes femininas chegam ao Sudeste Asiático impulsionadas pelo entrosamento e pela conquista da vaga no Campeonato Brasileiro. A gestora de viagens Renata Ramos Ribeiro, 50, integra o Manakah Vaa, um time de seis mulheres na categoria Master 50 , que garantiu a classificação após conquistar o terceiro lugar nacional.

“Somos uma equipe de seis mulheres 50 de Brasília, apaixonadas pela canoa havaiana. Começamos a treinar movidas pelo desafio e pela vontade de superar nossos próprios limites. Estar nesse Mundial significa muito mais do que competir. É celebrar cada treino, cada dificuldade superada e ter a oportunidade de ver e remar ao lado das nossas grandes ídolas do Brasil e do mundo”, afirma Renata.

A união entre mulheres também é o pilar da equipe Buriti, que compete na categoria Master 40 e conquistou o bronze brasileiro nas provas de 500 e 1.000 metros. Para a especialista em projetos de justiça Gehysa Garcia, 43, o Mundial representa a realização de um planejamento de anos.

“Estou na canoa há seis anos e foco em competições há três. Essa é uma realização gigante, porque consegui me organizar para ir rumo ao Mundial após ter que abdicar do anterior para fechar meu mestrado. Mais do que os resultados, o que aprendo todos os dias com esse coletivo de mulheres é o poder da rede de apoio. Nossa missão é representar o Brasil e Brasília, levando toda a energia do nosso lago para águas internacionais”, pontua Gehysa.

Colaborou Maria Eduarda Lavocat

Fonte Correio Braziliense
Foto:  Arquivo pessoal