Expansão urbana de Brasília cobra novo planejamento, diz professor

Ao Correio, pesquisador da UnB explica que crescimento da capital expõe limites do planejamento original e aumenta desafios de mobilidade e infraestrutura

O avanço da área urbanizada de Brasília ajuda a revelar uma transformação que vai além dos números do novo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para o geógrafo Fernando Luiz Araújo Sobrinho, professor do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília (UnB), o crescimento da capital mostra que a cidade planejada nos anos 1950 e 1960 já não corresponde à metrópole que existe hoje.

Brasília chegou a 662,54 km² de feições urbanizadas em 2022, segundo dados do IBGE divulgados nesta terça-feira (18/8), e foi o município que mais ampliou essa área entre 2019 e 2022, com crescimento de 72,08 km². O avanço fez a capital ultrapassar o Rio de Janeiro e assumir a segunda maior extensão de áreas urbanizadas do país, atrás apenas de São Paulo.

Mais do que indicar o tamanho da ocupação urbana, porém, o dado mostra a velocidade com que Brasília continua se transformando. Para o professor, a capital ainda está em um processo de expansão que a diferencia de outras grandes cidades brasileiras. “Brasília ainda tem uma área rural muito vasta. Ou seja, nós ainda temos áreas de expansão urbana dentro do território do Distrito Federal”, explicou. 

A diferença em relação ao Rio de Janeiro ajuda a explicar esse cenário. Enquanto Brasília ainda possui áreas passíveis de ocupação dentro do território do Distrito Federal, o Rio é uma cidade praticamente toda urbanizada e encontra obstáculos naturais para continuar crescendo dentro de seus limites, como montanhas, áreas de Mata Atlântica, unidades de conservação, lagoas e a Baía de Guanabara.

Segundo o pesquisador, por isso, parte do crescimento do Rio ocorre atualmente nos municípios de sua região metropolitana. Brasília, por outro lado, continua ampliando sua ocupação dentro do próprio território. “O Rio de Janeiro cresce hoje na região metropolitana e não mais tanto dentro do município-sede. Brasília cresce dentro do município-sede”, disse. 

Uma cidade que cresceu mais rápido que o planejamento

A expansão ganha ainda mais significado quando considerada a história da capital. Brasília tem pouco mais de seis décadas, mas passou de menos de 100 mil habitantes em 1960 para uma população superior a 3 milhões. Para Fernando Luiz Araújo Sobrinho, essa velocidade é uma das principais características da urbanização brasiliense. “A velocidade, a intensidade do crescimento urbano e do crescimento populacional de Brasília é algo que diferencia ela de outras cidades brasileiras”, explicou. 

O professor ressalta que o processo de metropolização da capital ganhou força principalmente a partir do fim dos anos 1980 e início dos anos 1990. Desde então, Brasília deixou de ser apenas uma cidade planejada para se tornar o núcleo de uma dinâmica urbana que envolve também municípios do Entorno.

É justamente nesse ponto que, segundo o pesquisador, aparece um dos principais desafios: o planejamento pensado para a Brasília original não dá mais conta de toda essa realidade. “O planejamento urbano controlado de Brasília dos anos 50 e 60 não se aplica mais a essa realidade que nós vivemos”, destacou. 

A questão, explica o professor, não significa abandonar o planejamento do Plano Piloto, que possui características próprias por ser uma área tombada. O desafio está em pensar o restante do território a partir de uma lógica metropolitana.

Crescer para longe também tem um preço

A expansão da mancha urbana não é apenas uma questão de mapas. Quanto maior a distância entre as áreas onde as pessoas moram, trabalham e acessam serviços, maior tende a ser a necessidade de deslocamento. Para o professor, esse é um dos efeitos mais concretos de uma cidade que se espalha pelo território: o aumento do tempo e do dinheiro gastos para circular.

“Quanto mais tempo gasto no percurso casa-trabalho, o que isso gera? O tempo que você poderia fazer academia, que você poderia estudar, que poderia dedicar ao lazer, à sua família, você está perdendo no transporte coletivo”, comentou. 

O impacto também aparece no orçamento. Combustível, manutenção de veículos e outros custos relacionados ao transporte individual passam a pesar mais para as famílias que precisam percorrer grandes distâncias diariamente. O problema é agravado, na avaliação do pesquisador, pela dificuldade de o transporte público atender de forma satisfatória a população de uma cidade tão espalhada. “Você acaba gastando dinheiro com o transporte individual, que é caro e que é também dispendioso de tempo”, disse. 

Nesse cenário, a expansão urbana pode produzir um efeito que vai além da ocupação de novas áreas: ela aumenta a distância entre as pessoas e as oportunidades que a cidade oferece.

Brasília ainda pode crescer mais

Apesar da redução no ritmo de crescimento populacional do Brasil, o professor avalia que Brasília deve continuar crescendo nas próximas décadas. A capacidade da capital de atrair trabalhadores de outras regiões, especialmente pela concentração de atividades de serviços e empregos públicos, é um dos fatores que sustentam essa perspectiva. “Brasília é uma cidade das migrações. Nós ainda não esgotamos a nossa capacidade de atrair migrantes”, relatou. 

O pesquisador também chama atenção para uma mudança que deve acompanhar esse crescimento: o envelhecimento da população. Uma Brasília maior e mais velha tende a exigir uma estrutura urbana diferente, principalmente na área de mobilidade.

Para ele, a cidade precisará ampliar e diversificar as alternativas de transporte para atender uma população cada vez maior e com diferentes necessidades. “Eu vejo que vai ser uma cidade que vai continuar crescendo mesmo que outras cidades brasileiras não cresçam mais”. 

O avanço, no entanto, não deve ocorrer apenas pela abertura de novas áreas. Outra possibilidade é o adensamento de regiões que hoje apresentam ocupação baixa ou média. Isso significa que Brasília pode crescer tanto para os lados, ocupando novas áreas, quanto para dentro, com maior concentração de construções em regiões já urbanizadas.

Expansão pressiona áreas rurais e de preservação

Se o ritmo atual continuar, o avanço da mancha urbana também pode aumentar a pressão sobre áreas que ainda não foram urbanizadas. O Distrito Federal possui unidades de conservação e áreas rurais que convivem com a expansão das ocupações. O geográfo vê esse processo como uma das questões que precisarão ser enfrentadas pelo planejamento urbano das próximas décadas. “A gente vai continuar tendo a expansão da mancha urbana, um maior tensionamento com unidades de conservação, com áreas que são rurais que vão passar a ser urbanas”. 

Para o pesquisador, o desafio de Brasília não é simplesmente impedir que a cidade cresça, mas definir como esse crescimento ocorrerá. A expansão registrada pelo IBGE, nesse sentido, funciona como um retrato de uma capital que mudou profundamente desde sua inauguração e que continua se transformando. A questão colocada pelos números, na avaliação do professor, é se infraestrutura, transporte e planejamento conseguirão acompanhar esse movimento.

Fonte Correio Braziliense
Foto: Divulgação/Semob-DF