Presidenciáveis falam apenas com as bolhas

Nesse começo de disputa, candidaturas se mantêm nas respectivas zonas de conforto: postulantes percorreram regiões onde são fortes e reafirmaram posições. Entre os estrategistas das campanhas, preocupação é não "queimar a largada"

A primeira semana da campanha presidencial terminou com um cenário distante do ritmo de confronto que costuma marcar uma eleição nacional. Desde o início oficial da corrida, em 16 de agosto, os principais candidatos percorreram seus redutos eleitorais, reforçaram ideias já conhecidas e trocaram críticas pontuais.

Nos bastidores, a avaliação entre as campanhas é de que o primeiro movimento foi de cautela. Os candidatos mais bem colocados, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), mantiveram a polarização como eixo central, mas evitaram transformar os primeiros dias em guerra aberta. O petista procura defender o governo e apresentar resultados da gestão, enquanto Flávio aposta na oposição ao presidente e na associação de Lula com os problemas que pretende explorar na eleição. A estratégia, neste momento, é ocupar espaço sem antecipar uma disputa que deve ganhar intensidade após o início das propagandas eleitorais, previstas para quinta-feira.

O confronto mais evidente da semana ocorreu, aliás, no campo da direita. Declarações do presidente do PSD, Gilberto Kassab, vice na chapa de Ronaldo Caiado (PSD), de que Flávio teria poucas chances de chegar ao segundo turno, provocaram reação dos bolsonaristas. Aliados do senador passaram a acusar os pessedistas de favorecerem Lula. Caiado classificou a reação como “desespero” dos bolsonaristas e reafirmou que sua candidatura está mantida. Play Video

A troca de farpas também trouxe à tona um problema de Caiado. O ex-governador de Goiás precisa ampliar seu espaço entre eleitores de direita sem ser associado à possibilidade de uma composição com Lula no segundo turno. A situação ficou mais delicada depois de Kassab admitir conversas do Centrão com o presidente. Nos bastidores da campanha de Caiado, a preocupação é evitar que a declaração do vice contamine a imagem de independência que o candidato tenta construir. A equipe também passou por uma mudança logo no início da campanha, com a substituição do marqueteiro Paulo Vasconcelos por Marcos Carvalho — Vasconcelos era contrário aos ataques a Flávio, que se intensificaram.

O filho 01, por sua vez, encontrou no caso do filho mais velho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, uma nova frente de ataque. Passou a explorar politicamente as investigações e a associar o episódio ao governo. A estratégia indica que o caso deve ganhar espaço nas redes sociais e nos discursos de campanha. O entorno de Lula, porém, tenta impedir que a pauta se transforme em um dos principais assuntos da eleição

Um movimento observado nos primeiros dias foi o esforço de Flávio para apresentar unidade dos bolsonaristas. Depois de meses de tensão pública com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, os dois voltaram a aparecer juntos e participaram de gravações para a campanha.

“Só vou se ele for”

Outro sinal da estratégia mais cautelosa de Flávio apareceu na agenda de debates. O candidato do PL decidiu condicionar sua participação no primeiro turno à presença de Lula (Leia sobre o debate na página 3). A orientação, segundo aliados, é para evitar o “fogo amigo”: sem o petista presente, Flávio ficaria exposto aos ataques, principalmente, de Ronaldo Caiado e Renan Santos. A ideia é concentrar o confronto no adversário que o bolsonarismo considera prioritário e não oferecer aos concorrentes um espaço para desgastá-lo.

Romeu Zema (Novo) tem concentrado críticas em Lula — razão pela qual desistiu do debate na última hora — e tenta construir identidade própria, com defesa de reformas e redução do tamanho do Estado. O desafio é interromper a corrente de votos na direção de Flávio. Nos bastidores, a avaliação é de que Zema precisa “crescer rapidamente” para não ficar restrito a um eleitorado ideológico.

Para a campanha de Renan Santos (Missão), a grande notícia foi a decretação, pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), de que o adversário Pablo Marçal (PRTB) não pode participar de debates, receber recursos dos Fundo Partidário e fazer propaganda eleitoral no rádio e na tevê. Entre as campanhas, paira a desconfiança de que o influenciador foi lançado na disputa para rivalizar com Renan nas redes sociais e atuar como “linha auxiliar” de Flávio — que vem recebendo duros ataques do postulante do Missão. A estratégia seria, por meio de Marçal, desidratar Renan ao ponto de seus votos se dispersarem entre os candidatos da direita, o que favorece o filho 01 ao manter acesa a polarização com Lula. 

O cientista político Rudá Ricci aponta dificuldades na campanha de Flávio, como a falta do tom adequado para uma disputa presidencial. “Ele não é candidato a deputado, que pode escolher um nicho. Ele está falando para o país”, adverte.

Na avaliação do cientista político, ao atacar Flávio, Caiado se posiciona mais ao centro e constrói uma imagem de candidato de direita crítico ao bolsonarismo. Para Ricci, ainda é cedo para saber se essa estratégia vai se converter em votos.

Para a advogada especialista em direito eleitoral Wanessa Serpa, o principal desafio de Lula e de Flávio será ultrapassar suas bases. “A eleição tende a ser decidida menos pelo eleitor militante e mais por aquele eleitor que não se identifica integralmente com nenhum dos dois polos”, afirma. Para ela, o presidente deve apostar nos resultados do governo em áreas como economia, emprego, renda e políticas sociais. O filho 01, por sua vez, precisará ampliar o discurso para além do bolsonarismo e buscar segmentos que rejeitam o atual governo, mas que ainda apresentam resistência ao sobrenome Bolsonaro. Mas, para Wanessa, o momento é de mobilizar militantes e reafirmar a identidade da candidatura.

O advogado eleitoral Luiz Gustavo Cunha chama a atenção para o tempo de tevê dos postulantes. Apesar das diferenças — Lula, por exemplo, terá 5min31seg contra 4min20seg de Flávio —, ele considera que o veículo continua relevante. “Tempo de tevê não significa automaticamente voto. Representa oportunidade de exposição”, observa.

Cunha aponta o chamado “voto útil antecipado” como um obstáculo para candidaturas que tentam romper a polarização. Sem o mesmo espaço na televisão, esses candidatos deverão ampliar a presença em debates, redes sociais e eventos capazes de gerar repercussão.

Centrão se equlibra nos estados

Os principais partidos de centro optaram por se manter afastados da polarização, refletindo a posição de neutralidade na disputa presidencial. Levantamento do Correio mostra que, em três dos cinco maiores colégios eleitorais, o Centrão apoia nomes que não apadrinhados por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou por Flávio Bolsonaro, os mais bem colocados na corrida ao Palácio do Planalto. 

O levantamento levou em conta as posições estaduais da Federação União Progressista — que congrega União Brasil e Progressistas —, Republicanos, MDB, Podemos e PSD. Os três casos em que a maioria dessas siglas se distanciou dos candidatos dos presidenciáveis mais competitivos ocorreram em Minas Gerais, Bahia e Paraná. Equivalem respectivamente, ao segundo, quarto e quinto maior colégio eleitoral do país.

No caso de Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, a demora do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) para definir se concorreria ao governo do estado pressionou o PL de Flávio Bolsonaro a buscar outro palanque e lançar seu próprio candidato: Flávio Roscoe (PL). Cleitinho declarou apoio à candidatura do filho 01, mas reforçou que o seu candidato no estado é Roscoe.

O impasse ao redor de Cleitinho distribuiu os apoios do Centrão. No entanto, esses partidos não se alinharam a Patrus Ananis (PT), candidato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e Roscoe. Republicanos e do MDB apoiaram Cleitinho. A Federação UP e o PSD atuam pela reeleição do governador Mateus Simões (Novo). Já o MDB lançou o próprio candidato ao governo, Gabriel Azevedo.

Na Bahia, a maioria dos partidos de centro — União Brasil, Progressistas, Republicanos, Podemos e PSD — declararam apoio a ACM Neto (União) para o governo estadual. O candidato anunciou que seu candidato à Presidência é Ronaldo Caiado (PSD) e que, em um eventual segundo turno sem ele, apoiará o nome de oposição ao PT. Ele nega, no entanto, que seja o candidato de Flávio na Bahia. Da parte de Lula, Jerônimo Rodrigues (PT) conta com apoio apenas do MDB.

No Paraná, apenas o Podemos se aliou ao candidato de Flávio ao governo do estado, o senador Sérgio Moro (PL). Os demais partidos de centro declaram apoio a Sandro Alex (PSD), que tem Caiado como candidato à Presidência.

O caso do Rio de Janeiro mostra uma vantagem para Lula. Eduardo Paes (PSD), apoiado pelo presidente ao governo do estado, também conta com o MDB, Podemos e PSD. Douglas Ruas (PL), candidato de Flávio, está sozinho. A Federação União Progressista optou pela neutralidade e o Republicanos decidiu lançar Anthony Garotinho.

Especialista e doutorando em Ciência Política (UFRGS), Carlos Eduardo Borenstein explica que o cenário reflete a estratégia do Centrão de se equilibrar entre os votos lulistas e bolsonaristas para maximizar vantagens eleitorais nos estados e obter uma bancada robusta no Congresso. “Esses partidos têm uma vocação governista. Todos fazem parte da base do governo Lula. Ao mesmo tempo, os candidatos do Centrão, sobretudo nas regiões Sul e Centro-Oeste, acabam sendo eleitos pelo voto bolsonarista”, analisa.

Fonte Correio Braziliense
Foto: Ricardo Stuckert/PR/Jefferson Rudy/Agência Senado