Direita avança, Congresso muda e estados pesam no segundo turno

Caiado e Zema sinalizam oposição ao PT; Cury e Renan não orientam eleitores. Flávio busca novas adesões e Lula votos no Sudeste

O primeiro turno deu a Flávio Bolsonaro mais do que a dianteira na disputa presidencial. Entregou ao candidato do PL palanques fortalecidos, a maior bancada da Câmara e um avanço expressivo no Senado. Lula preservou sua fortaleza nordestina, mas precisará ampliar suas fronteiras eleitorais para vencer em 25 de outubro. A eleição também revela uma mudança na composição da classe política: lideranças mais jovens, familiares de políticos tradicionais e personagens projetados pelas redes sociais ganham espaço, combinando renovação geracional e continuidade de correntes ideológicas e oligarquias conservadoras no poder.

A geografia mostra o desafio. Lula venceu em todos os estados do Nordeste, acumula um saldo de aproximadamente 11 milhões de votos. Bahia, Pernambuco e Ceará produziram diferenças superiores a 3,2 milhões, 1,8 milhão e 1,8 milhão, respectivamente. Nas demais regiões, entretanto, Flávio somou cerca de 13 milhões de votos de vantagem. A força nordestina permanece indispensável ao petista, mas o resultado demonstra que ela precisa ser acompanhada de maior competitividade nos grandes colégios eleitorais do Sudeste.

São Paulo deu a maior vantagem a Flávio: 3,4 milhões de votos. Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo também contribuíram para sua liderança. Os três maiores estados do Sudeste concentram mais de 40% do eleitorado brasileiro, tornando pequenas alterações proporcionalmente relevantes para o resultado nacional. No Sul, especialmente Paraná e Santa Catarina, diferenças superiores a 1,8 milhão de votos reforçaram a vantagem do senador. Para se reeleger, Lula precisa reduzir essas perdas enquanto preserva sua mobilização no Nordeste.

A nova Câmara traduz esse deslocamento. O PL elegeu 121 deputados, contra 97 em 2022, enquanto o PT conquistou 70 cadeiras. União Brasil e PP somaram 87; o PSD, 43; o Republicanos, 41; e o MDB, 36. O bolsonarismo amplia sua capacidade de organizar a agenda legislativa, disputar o comando da Casa e pressionar o Executivo. Entretanto, o PL permanece distante de uma maioria própria: os partidos do Centrão (União Brasil, PP, PSD e Republicanos) continuam indispensáveis à construção de coalizões.

Essa composição mostra que a eventual eleição Flávio facilitaria a relação entre o Planalto e o Congresso e a aprovação de uma agenda política dura de direita, com um ajuste fiscal em V, como propõem os ultraliberais. Para Lula, mostra que sua eventual reeleição começará sob condições mais difíceis de negociação no quarto mandato, na política, e um contingenciamento forte nas políticas sociais devido ao deficit público.

Jovem guarda

No Senado, a mudança é ainda mais significativa. O PL elegeu 19 senadores e chegará a 28 representantes, diante de nove do PT. A bancada bolsonarista ganha força para disputar a presidência da Casa e influenciar decisões sobre autoridades e tribunais. Esse resultado aumenta o poder de pressão sobre o Supremo, mas não assegura ao partido capacidade de decidir sozinho. O impeachment de Alexandre de Moraes pode ser uma consequência imediata.

As dobradinhas do PL no Distrito Federal, no Mato Grosso do Sul, no Rio de Janeiro, em Rondônia e em Santa Catarina proporcionaram esse grande avanço. Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, Carlos Jordy e Carlos Portinho, Carlos Bolsonaro e Carol de Toni ampliam a rede de mobilização do partido. A presença de Michelle e Carlos no Senado, somada à candidatura presidencial de Flávio, mostra como o bolsonarismo distribui seu protagonismo por novos mandatos e preserva a centralidade da família.

A Câmara confirma a mudança geracional: 183 eleitos exercerão seu primeiro mandato. Isso não permite concluir que houve rejuvenescimento generalizado, mas indica uma troca relevante de representantes, com jovens políticos despontando com grande votação e alguns veteranos líderes políticos encerrando a carreira com derrotas acachapantes. Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato, ambos com mais de três milhões de votos, exemplificam a força de lideranças jovens cuja projeção passa pelas redes sociais. Sua votação fortalece bancadas e amplia sua influência sobre a linguagem e as prioridades da direita. São lideranças com perfil de extrema-direita que estão pautando narrativas e comportamentos políticos.

Ao mesmo tempo, a ascensão de filhos, irmãos e cônjuges de políticos tradicionais torna evidente que a renovação pode reproduzir estruturas antigas. O processo combina sucessão familiar, máquinas locais e mobilização digital. Para a esquerda, envelhecida, o desafio envolve formar lideranças capazes de disputar esses espaços sem depender exclusivamente do prestígio de Lula e da geração que construiu o PT.

O segundo turno nos estados prolonga essa disputa. Caiado negocia com Kassab; Zema sinaliza oposição ao PT; Cury e Renan Santos deixam seus eleitores sem orientação. Flávio tentará transformar o avanço territorial e parlamentar em novas adesões. Lula precisará convencer parte do centro e recuperar votos no Sudeste, mostrar que a vitória legislativa da direita não encerrou a disputa presidencial. A rejeição e o medo serão o grande divisor de águas do segundo turno.

Fonte Correio Braziliense
Foto: Caio gomez