O problema fundamental da atuação das redes sociais é a falta de transparência e o fato determinante para isso é a arquitetura dos algoritmos, algo que somente a plataforma sabe como funciona. Em um período eleitoral como o atual, crescem as desconfianças sobre a isenção das big techs, sobretudo depois das decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) relacionadas à Meta. O professor associado de Comunicação Política da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Arthur Ituassu, frisa, porém, que essa dúvida não é uma exclusividade brasileira, uma vez que as redes tonaram-se fundamentais à disputa política. O meio digital, hoje, é fundamental para existir publicamente e garantir alcance mínimo junto ao eleitorado — algo que a direita compreendeu faz tempo e a esquerda ainda tem dificuldade em preceber a importância. A seguir, a entrevista que concedeu ao Correio.
Donos das big techs têm proximidade com políticos de direita. Essa afinidade ideológica não levanta suspeitas sobre favorecimentos a candidaturas ou a governos de direita?
A questão das plataformas passa pelo problema da obtusidade do algoritmo. Há pouca transparência sobre como essas plataformas fazem a mediação da comunicação em contextos políticos. Esse é um problema no mundo inteiro. Na verdade, o problema não é nem o fato de as plataformas fazerem mediação e, eventualmente, estarem a favorecendo um candidato ou outro. Isso pode acontecer. O problema, do ponto de vista da regulação, é a falta de transparência. Ninguém sabe como os algoritmos funcionam — somente as empresas.Play Video
Qual a consequência dessa falta de transparência?
Esse é um problema sério do ponto de vista da comunicação política em um contexto eleitoral. Você pode, sim, ter mediadores que favorecem um ou outro candidato. Já aconteceu, não é verdade? Um jornal favorecia um candidato, uma televisão favorecia outro candidato. Mas, quando isso ocorria no sistema moderno de mídia, centralizado na televisão e no rádio, havia uma certa transparência. Via-se aquilo acontecendo. O que acontece hoje é a falta de transparência, o que tornou a questão mais complicada.
Candidatos com forte presença no meio digital garantiram vagas no Congresso nas eleições. São os casos de Nikolas Ferreira (PL-MG), Lucas Pavanato (PL-SP) e Érika Hilton (PSol-SP), por exemplo. Na sua avaliação, uma boa campanha eleitoral nas redes sociais é determinante para uma vitória nas urnas?
É muito difícil dizer que a campanha digital é determinante no resultado eleitoral. Mas, em alguns contextos, tem um papel estruturante. É preciso estar presente de alguma forma em múltiplos espaços para ter algum tipo de alcance eleitoral. Tem estados em que a mídia social faz mais diferença e tem estados onde está menos associada ao sucesso eleitoral. Em Minas Gerais, por exemplo, a gente percebe que as mídias sociais estão fazendo muita diferença. No Paraná, também. No Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, nem tanto. No Rio de Janeiro tem muitas variáveis que estão fora do digital que tem muito efeito: milícia, igreja, Baixada Fluminense e políticos. Não é um lugar onde o digital tem muito efeito, mas você não pode abrir dele. Ainda tem o elemento da eleição proporcional. As mídias digitais são muito favoráveis à eleição proporcional por causa da segmentação da comunicação no ambiente digital. Antigamente, você tinha que mandar a mesma mensagem para todo mundo. Agora, você manda mensagens específicas para mini-públicos específicos. Isso que a gente chama de segmentação está acontecendo de forma muito expressiva, porque a lógica da mídia digital é diferente da mídia de massa. A segmentação é muito favorável à eleição proporcional, em que eu não preciso falar para todo mundo. Agora, se você me perguntar: “Para uma eleição majoritária, você pode abrir mão das mídias digitais?” Não, de jeito nenhum. Aí que está o engano do governo. Hoje, a gente tem uma lógica de que tem de estar em todos os espaços. A gente tem que estar no podcast, no debate, em múltiplos espaços. A campanha ficou muito mais complexa. Antigamente, você precisava estar em alguns lugares. Agora, tem uma imensidão de espaços e de possibilidades.
Ao chegar ao segundo turno em desvantagem, a campanha à reeleição do presidente Lula decidiu redefinir as estratégias e se organizar no meio digital. O presidente aumentou sua presença nesse ambiente e até apareceu em vídeo de selfie. Uma mudança agora, no segundo turno, tende a gerar efeitos significativos e positivos para a campanha em tão pouco tempo?
Não há dúvida de que deixou para em cima da hora, tem um erro de campanha. Não é à toa que, por exemplo, o PL cresceu do jeito que cresceu, porque ele está crescendo com atores. O Jair Bolsonaro, por exemplo, é um ator não tradicional, com posições disruptivas, que utilizou o ambiente digital como forma de alavancar capital político. Houve uma mudança em 2016 com a datificação e automatização das campanhas, e os partidos tradicionais tiveram muita dificuldade de entrar nisso, de adotar uma linguagem disruptiva, que chama atenção do algoritmo. Por que o (deputado André) Janones só está fazendo isso agora no segundo turno? Porque há uma dificuldade dos partidos tradicionais de lidar com isso. Porque, na verdade, significa dar poder a um outro tipo de ator no que diz respeito à elite política do partido.
Uma tese amplamente defendida por cientistas políticos é a de que a direita predomina e tem mais força nas redes sociais. Concorda com esse entendimento? A extrema-direita se sai melhor por competência?
A esquerda está no poder há seis mandatos, praticamente, somente com o interregno dor Bolsonaro. Então, ela virou status quo. E a direita veio muito forte nesse anti-status quo, com uma linguagem de ataque na internet, em campanha permanente. O Nikolas Ferreira bate no governo o tempo todo. Isso traz uma nova dimensão para o governo, que não tem que só governar, mas tem que disputar narrativa no digital. Se não fizer isso, terá níveis de aprovação lá embaixo, como foi o caso de Lula. É preciso entender que se não ficar no digital disputando a narrativa, a oposição está trabalhando na construção da percepção. Não adianta mostrar resultado depois, porque a percepção é construída no sentido de que é preciso mudar — “está ruim como está, precisa mudar”. E a mídia digital é a mídia da novidade, do diferente. Dizer que está tudo bem não ganha atenção na mídia digital. E aí você começa a perceber que o incumbente, que antes era o cara que controlava a máquina e se dava bem, agora é ruim numa eleição. O incumbente está perdendo o tempo todo não só na América Latina, mas no mundo inteiro. É uma campanha permanente. Por isso, é estranho, de repente, ter o anúncio de mudança na estratégia de campanha digital agora. Por que não estava fazendo isso antes? Vai fazer nas últimas semanas?
A campanha de Flávio à Presidência contou com altos investimentos em redes sociais e apoio de aliados políticos famosos no meio digital. Como você avalia o desempenho da campanha bolsonarista nas redes?
Acho que o determinante, no primeiro turno, foi ter colocado uma percepção generalizada de que é preciso mudar. Essa percepção foi construída e o governo não disputou essa narrativa. Os bolsonaristas trabalham isso na campanha permanentemente e eles sempre trazem uma novidade. Em 2018, foram os grupos de WhatsApp. Em 2026, o Flávio traz um investimento muito grande em anúncios digitais, além de aproveitar seu alcance orgânico. Mas aqui tem uma outra discussão que é importante: as campanhas contam com dinheiro público. Milhões de reais do contribuinte estão indo para a Meta, para pagar anúncio digital de campanha. São coisas que a gente tem que discutir.
Nos últimos dias, a Justiça Eleitoral produziu um vaivém de decisões sobre a legalidade do canal de WhatsApp Exército do Lula, criado pelo Janones. Esse canal tem potencial transformador na campanha do petista?
Acho que a mobilização que está sendo feita no digital é um elemento central do posicionamento de Lula no segundo turno. Não há dúvida. As redes sociais são o básico. Se não fizer nelas, vai se estrepar, que foi o que aconteceu. A esquerda que foi eleita no primeiro turno foi a que atuou nas redes sociais. Tem que fazer segmentação, falar com vários públicos, fazer a mobilização, disputar narrativa. Se não fizer isso, não está fazendo campanha hoje em dia. Acha que com a biografia, aliança, tempo de televisão vai ganhar eleição? Não vai. Além disso, é o mais barato: os candidatos que apostam em redes têm uma relação custo-benefício melhor do que aqueles que não investem.
O volume de reclamações judiciais sobre desinformação e publicidade digital irregular quase triplicou na Justiça Eleitoral, em 2026, em relação a 2022. Isso aponta que, apesar da atuação do TSE, as redes continuam sendo um lugar sem controle e de disseminação de fake news?
As redes não são mais, sem dúvida alguma, o território que era em 2018, de “Deus nos acuda”. A gente tem uma rede hoje de laboratórios, universidades e no terceiro setor também, que acompanham tudo o que está acontecendo na internet. Hoje em dia, se o cara deslegitima o sistema eleitoral, o TSE recebe na hora essa postagem. Então, a coisa avançou muito e está todo mundo de olho. Mas isso é muito bom do ponto de vista da defesa da democracia, porque o risco é muito grande de desandar. Se a gente tem uma sociedade complexa e organizada, muito forte, é um elemento defensor do regime democrático. Acho também que essa figura do eleitor bobo, enganado, é uma ficção. As pesquisas mostram que você acaba recebendo mais fake news naquele grupo que você está inserido, para reforçar sua posição. Tem um modus operandi que, agora, está aparecendo muito, mas que acontecia tranquilamente em 2018.
Fonte Correio Braziliense
Foto: Weiler Finamore/Projeto Comunicar/PUC-Rio












