Regiões do DF enfrentam temporais e população sofre com os prejuízos

Chuva intensa causou alagamentos, quedas de árvores e perdas em várias regiões do DF. População relata os momentos de maior tensão com o volume e a força da água e fala do medo, revolta e problemas crônicos na drenagem

A forte chuva que atingiu o Distrito Federal na tarde de ontem (5/2) provocou alagamentos, quedas de árvores, transbordamento de bueiros e prejuízos em diferentes regiões administrativas. Segundo o Sistema de Monitoramento de Chuvas Urbanas Intensas (Simcurb), da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do DF (Adasa), as áreas com maior volume de precipitação, até a última atualização antes do fechamento desta edição, foram São Sebastião (48,8 mm), Itapoã (47,6 mm) e Varjão (43,4 mm).

Além dos alagamentos nas principais vias de São Sebastião, famílias da Quadra 307 passaram por momentos de tensão durante a tempestade. O temporal fez com que a água descesse com violência pela via, arrastando terra, barro e entulho, colocando moradores em situação de desespero.

Imagens gravadas por quem vive na região mostram homens, mulheres e até crianças tentando conter a força da enxurrada com os próprios meios. Com enxadas, pedaços de madeira e o que estivesse à mão, os moradores tentavam desviar o curso da água para impedir que entrasse nas casas. Procurado, o Corpo de Bombeiros (CBMDF) informou que não foi acionado para nenhuma ocorrência na região.

Ainda de acordo com a corporação, ao menos quatro árvores caíram em decorrência do temporal. O CBMDF prestou atendimento em Sobradinho, na região da Rajadinha — próxima ao Paranoá — e no Jardim Botânico. Em uma das ocorrências, uma árvore caiu em via pública, comprometendo a circulação de veículos. Em outro ponto, o tronco atingiu o portão de uma residência.

O caso mais grave foi na Estância Portal da Serra, no Jardim Botânico, onde a queda de uma árvore atingiu parte de uma casa. Apesar do impacto, não houve registro de feridos. As ocorrências resultaram apenas em danos materiais.

Em Ceilândia, a chuva causou alagamentos em diferentes pontos da região administrativa. Uma mulher foi arrastada pela enxurrada em meio a carros, em uma das vias mais movimentadas de Ceilândia, a Avenida Carlos Prates.

Próximo à Estação Guariroba, um carro ficou submerso. O dono do veículo, José Nazareno, de 63 anos, morador do centro de Ceilândia, contou ao Correio que foi surpreendido pelo temporal enquanto trabalhava como motorista de aplicativo. “Eu não sabia que aqui alagava dessa forma. Estava com passageiro quando o carro começou a boiar”, relatou. Segundo ele, a água subiu rapidamente e chegou à altura da direção.

José afirmou que precisou sair do carro às pressas, junto com o passageiro, para evitar algo pior. “Larguei o carro para trás. Tentei colocar o carro na calçada, no lugar mais alto que consegui. Saímos pela porta traseira, que foi a única que conseguimos abrir”, contou. “A gente fica nervoso na hora, se apavora. A água molhou tudo por dentro do carro, motor, tudo”, lamentou.

Rotina

Ainda em Ceilândia, o transbordamento de bueiros voltou a causar alagamentos e prejuízos na QNN 38, segundo moradores. A enxurrada abriu bocas de lobo e fez com que a água invadisse residências da quadra, problema que, segundo a comunidade, repete-se há anos. Moradora da região há mais de duas décadas, a aposentada Joana Darc, de 72 anos, afirma que a situação é recorrente. “Há mais de 20 anos a gente mora aqui e toda chuva é a mesma coisa”, disse. Ela também alertou para os riscos. “Quando chove, os bueiros ficam abertos e tem muitas pessoas em situação de rua. Deus me livre se alguém cair aí dentro. É muito perigoso”, alertou. 

Outro morador afetado é Marcos Antônio Machado, de 56 anos, que relata que a casa da mãe foi novamente inundada. “É a oitava vez que a casa dela enche toda de água. É só chover forte que as bocas abrem e entra tudo pra dentro de caso”, afirmou. Ele contou que comprou o imóvel há cerca de 20 anos e que o problema nunca foi resolvido. Marcos também alertou para o risco estrutural causado pelos bueiros abertos e pelo tráfego de veículos pesados. “Isso aqui já afundou duas vezes. As carretas passam em cima e correm o risco de abrir de novo”, afirmou.

Além dos danos materiais, os moradores relatam contato frequente com água contaminada. “O que não tem aqui é água limpa. É rato morto, gato morto, cachorro morto, tudo desce com a enxurrada”, disse Marcos. Segundo ele, o sistema de drenagem não comporta o volume de água que desce da região da Guariroba. “Os esgotos são muito pequenos. A manilha é de mil, tinha que ser de dois mil pra água passar e ir embora. Não dá conta”, explicou. 

Medo e revolta

No Setor P Sul, também em Ceilândia, uma enxurrada provocada pelo temporal assustou moradores e motoristas que passavam pela Avenida P2. O volume intenso de água tomou a via em poucos minutos, dificultou a passagem de veículos e obrigou pedestres a interromperem o trajeto por segurança. A publicitária Sarah Regina Soares Teixeira, de 23 anos, estava no local no momento da chuva e relatou momentos de medo. “Foi bem assustador, porque a quantidade de água era tão grande que parecia uma cachoeira mesmo. Então não era só uma chuva forte”, contou.

Além do medo, a publicitária descreveu sentimentos de insegurança e revolta. “Além de medo, vem a sensação de insegurança, de nojo, de revolta também, porque é uma situação muito difícil”, disse. Para ela, o problema é recorrente durante o período chuvoso. “Toda vez que chove, a gente, ao invés de agradecer pela chuva, sente medo do que pode acontecer no meio da rua, medo de não conseguir chegar em casa. Isso não é normal, não deveria ser assim”, concluiu.

Em nota, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) informou que equipes atuam continuamente na manutenção e desobstrução das redes de esgoto e drenagem em Ceilândia. Segundo a companhia, serviços específicos para a região serão executados de forma imediata. “Os bueiros da QNN 38 e vias próximas são monitorados e classificados como pontos de atenção, passando por mapeamento para ações preventivas”, afirmaram.

A Novacap acrescentou que há um cronograma permanente de limpeza, manutenção e desobstrução em andamento para reduzir novos episódios durante o período chuvoso. Ainda de acordo com a empresa, está prestes a ser publicado um edital para contratação dos projetos de adequação e ampliação do sistema de drenagem pluvial urbana em Ceilândia e nos setores L, G, H e J de Taguatinga.

PREVISÃO DO TEMPO

Hoje, Brasília amanhece de novo sob alerta laranja emitido pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), sinalizando perigo para chuvas intensas. Estão entre os riscos potenciais chuva entre 30 e 60 mm/h ou 50 e 100 mm/dia, ventos intensos de 60 a 100 km/h, corte de energia elétrica, queda de galhos de árvores, alagamentos e raios.

A previsão do tempo aponta para pancadas de chuvas ao longo de todo o dia, com ventos fracos a moderados e trovoadas no período da tarde. A temperatura deve variar de 20°C a 28°C, com umidade de 60% a 95%. Para amanhã, o Inmet sinaliza para chuvas mais amenas, com possibilidade de precipitação de forma isolada, ventos fracos e moderados, temperaturas de 20°C a 28°C e umidade de 60% a 100%.

Colaborou Artur Maldaner

Por Resenha de Brasília
Fonte Correio Braziliense
Foto: Material Cedido ao Correio