Comer está mais caro no DF e brasilienses reclamam

Apesar de o DF registrar a menor prévia da inflação do país, o aumento nos preços de produtos como tomate, cebola e leite longa vida reflete no orçamento doméstico. Custo do transporte e fatores climáticos são apontados como principais causas

Mesmo com a menor prévia da inflação entre as 11 regiões pesquisadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em abril de 2026, o aumento nos preços dos alimentos continua pesando no orçamento das famílias do Distrito Federal. Itens básicos do dia a dia ficaram mais caros e puxaram o principal grupo responsável pela alta do custo de vida na capital.

Correio ouviu representantes do varejo e da Secretaria de Agricultura, além de um economista, para analisar esse quadro. Entre os motivos para os aumentos, o custo do transporte e as condições climáticas foram unanimidade.

De acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), considerado a prévia da inflação oficial, Brasília registrou variação de 0,41% no mês passado. O grupo alimentação e bebidas foi o que exerceu maior influência sobre o índicador, com alta de 0,99% e impacto de 0,17 ponto percentual no resultado geral.

Na tentativa de driblar o aumento da inflação, os moradores do DF observam a situação e procuram alternativas para não diminuir o volume de compras no carrinho. Esse é o caso de Daniele Cristina, empreendedora de 32 anos, que demonstra indignação com a situação nos mercados. “Os preços estão exorbitantes! Tomate, cenoura, todas as frutas e legumes estão bem caros”, conta ela. “O jeito é substituir. Parei de comprar contra-filé porque vale mais a pena me virar com o coxão duro”, completa.

Quando o assunto é economizar, distância não é problema para Glaciele Lorenzo, 40, designer. “Já tenho o costume de fazer compras priorizando a economia. Sempre fico de olho na televisão e, quando surge alguma promoção interessante, acho que vale a pena ir mais longe para conseguir manter a qualidade da comida em casa”, relata. 

Para Frederico Rosário, 52, o jeito é arcar com os aumentos. “Os preços da cebola e do arroz não param de subir. Por sorte, ainda dá pra pagar o mercado, mas todo mês a conta aumenta. A população sente a diferença na hora de pagar as outras despesas”, diz o médico.Play Video

Entre os produtos que mais encareceram estão a cebola, que subiu 20,51%; o tomate, com aumento de 17,32%; o leite longa vida, que ficou 6,35% mais caro; e o pão francês, com elevação de 2,17%.

Nas carnes vermelhas, a variação média do grupo ficou em 0,68%, embora haja itens que apresentaram variação mais expressiva, como a costela (+2,46%), a picanha (1,87%) e o acém (1,48%). Outros tiveram redução, como a alcatra (-0,13%) e a carne de porco (-0,29%).

Também houve reajuste nas refeições consumidas fora de casa, que registraram alta média de 0,63%.

Os alimentos que apresentaram as maiores reduções foram o palmito em conserva (-2,10%); chocolate em barra e bombom (-2,30%); e o alho (-2,39%).

Produção

Para o economista e professor da Universidade de Brasília (UnB) Newton Marques, esse encarecimento em Brasília está ligado, principalmente, à baixa capacidade de produção local. “Brasília tem preços altos de alimentos e pouca variação entre eles de um mês para outro. Produzimos muito pouco. Quase tudo vem de outros lugares e chega por rodovia”, destaca o especialista, citando a dependência de estados como Minas Gerais, Goiás, São Paulo e Bahia.

Outro aspecto mencionado pelo economista é o custo do transporte, que tem influência direta sobre os valores cobrados nos supermercados. “Se os custos dos fretes aumentarem muito, isso impacta nos preços finais dos alimentos”, analisa. Marques acrescenta que a disparada observada em produtos como tomate e cebola está associada, sobretudo, a questões climáticas nas regiões produtoras. 

Sobre as perspectivas para os próximos meses, o cenário internacional pode continuar pressionando os preços. Marques assinala que conflitos geopolíticos e eventuais altas nos derivados de petróleo tendem a encarecer o transporte e diversos insumos, o que reflete em toda a cadeia produtiva e, por consequência, no preço final dos alimentos.

Varejo

Givanildo de Aguiar, diretor de Comunicação do Sindicato dos Supermercados do Distrito Federal, corrobora grande parte da análise do economista. A alta observada em produtos como cebola, tomate e leite é resultado de uma gama de variáveis que envolvem problemas climáticos, custos de produção e dificuldades logísticas no abastecimento. De acordo com ele, esses itens são especialmente sensíveis a oscilações na oferta, o que se reflete rapidamente nos preços ao consumidor.

O representante do setor afirma que os supermercados já percebem mudanças no comportamento do consumidor diante do encarecimento dos alimentos. Segundo ele, os clientes têm buscado alternativas mais baratas e substituído marcas e origens de produtos para equilibrar o orçamento. “Quando o bolso é afetado, a mudança de hábito acontece de forma quase imediata. O consumidor compara preços e escolhe aquilo que melhor atende à sua necessidade com menor desembolso”, afirma.

Givanildo de Aguiar destaca que os supermercados têm buscado negociar com fornecedores e indústrias para reduzir o peso dos reajustes sobre o consumidor final. “Procuramos dividir esse impacto entre produtores, comércio e consumidores, para que essa carga não fique excessivamente pesada para nenhum dos lados”, conclui.

Incentivo ao agro

De acordo com o secretário de Agricultura, Abastecimento e Desenvolvimento Rural do DF, Rafael Bueno, a alta nos preços dos alimentos em Brasília é resultado de uma combinação de fatores nacionais e internacionais — alguns citados pelo professor da UnB e pelo representante dos supermercados — que vão desde o encarecimento dos fertilizantes até o aumento do custo do transporte. Produtos de ciclo curto, como é o caso do tomate e da cebola, estão entre os mais afetados.

Bueno ressalta que fertilizantes essenciais à produção, como ureia, potássio e fósforo, ficaram significativamente mais caros nos últimos anos. “A ureia, principal fonte de nitrogênio para essas culturas, teve aumento de cerca de 60% desde o início dos conflitos bélicos no exterior”, diz. Como boa parte desses insumos é importada, o encarecimento do petróleo e do frete internacional é repassado para a cadeia produtiva e, consequentemente, ao consumidor.

Segundo o secretário, o Governo do Distrito Federal tem adotado medidas para reduzir custos e estimular a produção. Entre as ações estão incentivos fiscais por meio do programa Pró-Rural, ampliação do acesso ao crédito, investimentos em sistemas modernos de irrigação e programas de preparo de solo e distribuição de composto orgânico para pequenos produtores.

Maiores aumentos

  • Cenoura: +27,97%
  • Cebola: +20,51%
  • Tomate: +17,32%
  • Melancia: +14,50%
  • Feijão carioca (rajado): +7,00%
  • Melão: +6,56%
  • Leite longa vida: +6,35%
  • Uva: +5,46%
  • Ovo de galinha: +5,05%
  • Presunto: +4,52%

Fonte: IPCA-15/abril de 2026/Brasília

Maiores reduções

  • Camarão: -4,60%
  • Limão: -4,22%
  • Pão de forma: -4,09%
  • Frango em pedaços: -3,68%
  • Maçã: -3,57%
  • Laranja-pera: -3,31%
  • Mamão: -2,84%
  • Alho: -2,39%
  • Chocolate em barra e bombom: -2,30%
  • Palmito em conserva: -2,10%

Fonte: IPCA-15/abril de 2026/Brasília

*Estagiário sob a supervisão de Malcia Afonso

Por Resenha de Brasília
Fonte Correio Braziliense
Foto: João Pedro Zamora