Em momentos de crise, representar um governo diplomaticamente é uma das profissões mais ingratas. Isso porque é a embaixadora ou o embaixador que precisa tentar solucionar a situação do seu país representado no qual trabalha. É do papel do diplomata manter o mínimo de troca saudável entre as nações, mesmo que haja situações ou declarações que comprometam a narrativa.
Nas últimas semanas, embaixadores brasileiros em Washington e Buenos Aires foram colocados no centro de disputas políticas que começaram nos gabinetes dos presidentes, mas acabaram atingindo quem deveria funcionar como ponte entre os governos. O histórico recente mostra que o fenômeno não é novo. Em Tel Aviv, um diplomata brasileiro chegou a ser levado a um memorial do Holocausto para uma reprimenda pública.
O caso mais recente é o de Maria Luiza Ribeiro Viotti, embaixadora do Brasil nos Estados Unidos. Na terça-feira, o governo de Donald Trump anunciou a revogação do visto da diplomata em meio à escalada da crise entre Washington e Brasília. A medida foi apresentada pelos norte-americanos como resposta à demora brasileira em conceder o agrément a Daniel Perez, indicado por Trump para comandar a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília, e à negativa de vistos para dois diplomatas norte-americanos.
O episódio ganhou um novo capítulo na sexta-feira, quando o Senado dos Estados Unidos aprovou Perez por 51 votos a 47. A decisão, porém, não resolve o impasse em Brasília. O indicado de Trump ainda depende da concordância do governo brasileiro para assumir oficialmente o posto. A aprovação pelo Senado americano é uma etapa do processo norte-americano; não substitui o agrément brasileiro. “A tentativa de pressão sobre o governo Lula não vai funcionar”, resumiu um interlocutor de alto escalão ao Correio.
Enquanto os governos trocam argumentos sobre protocolos e reciprocidade, sobra para o diplomata administrar as consequências. E Viotti não está sozinha. Poucos dias antes de a crise com Washington chegar ao episódio do visto, outro embaixador brasileiro já havia sido retirado de seu posto. Em Buenos Aires, Júlio Bitelli foi chamado a Brasília para consultas depois de Javier Milei atacar publicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro Alexandre de Moraes durante a convenção do Partido Liberal, em São Paulo. O gesto é um dos instrumentos mais fortes disponíveis à diplomacia antes de medidas ainda mais duras.
A tensão não parou na convocação. O governo brasileiro decidiu não estabelecer prazo para o retorno de Bitelli a Buenos Aires, mantendo a relação em um nível diplomático mais baixo enquanto avaliava os próximos passos. Na prática, a crise passou a exigir do serviço exterior uma operação delicada: preservar os canais de comunicação entre dois países vizinhos enquanto os presidentes mantêm distância e trocam críticas.
A situação remete a outro episódio em que o diplomata acabou no centro da crise. Em fevereiro de 2024, o embaixador brasileiro em Israel, Frederico Meyer, foi chamado de volta a Brasília para consultas depois de Lula comparar a ofensiva israelense na Faixa de Gaza ao Holocausto. Em resposta, o chanceler israelense, Israel Katz, declarou Lula persona non grata em Israel.
Meyer viveu, então, uma das cenas mais constrangedoras da diplomacia brasileira recente. O governo israelense convocou o embaixador para esclarecimentos no Memorial do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém, em um episódio acompanhado pela imprensa. A escolha do local foi vista como uma reprimenda pública ao governo brasileiro.
Ao mesmo tempo, Daniel Zonshine, embaixador de Israel em Brasília, foi convocado pelo chanceler Mauro Vieira. Em vez de atuar apenas como canal de aproximação, o diplomata passou a ser também o mensageiro formal da insatisfação de seu governo — e o interlocutor de uma reação igualmente dura do outro lado.
Paradoxo
Os três episódios têm diferenças importantes, mas guardam uma característica em comum: quando a política de alto nível degringola, os embaixadores deixam de ser apenas os responsáveis pela manutenção cotidiana das relações bilaterais e passam a carregar, pessoalmente, parte do peso da crise.
É um paradoxo da diplomacia. O embaixador existe para manter aberta a conversa justamente quando os governos têm dificuldades para conversar. Mas, quando a temperatura política sobe demais, ele pode ser chamado de volta, convocado para dar explicações, transformado em alvo de retaliações ou até impedido de circular normalmente no país onde está lotado.
Fonte Correio Braziliense
Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press











