PF investiga Flávio desde julho por suspeitas no financiamento de filme

Candidato à Presidência é suspeito de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção no caso 'Dark Horse', filme financiado pelo dono do Master

O senador e candidato à Presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro, está sendo investigado desde julho deste ano, por determinação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). A informação veio a público com a queda do sigilo de parte das investigações relacionadas às fraudes do Banco Master.

Segundo a decisão que autorizou a investigação contra Flávio, a Polícia Federal apura suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros possíveis crimes que teriam sido praticados, em tese, pelo presidenciável no contexto do suposto financiamento do filme Dark Horse, uma cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro — condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros crimes.

O suposto financiamento do longa é alvo de dois inquéritos que tramitam no STF. O procedimento relatado por Mendonça investiga os repasses realizados pelo dono do Master, Daniel Vorcaro, buscando esclarecer em quais circunstâncias os pagamentos foram feitos, a origem dos recursos, o montante efetivamente movimentado e o destino final dos valores. É nesse inquérito que Flávio aparece como investigado.

O filho 01 de Bolsonaro foi flagrado em mensagens pedindo dinheiro a Vorcaro para, segundo alegou, financiar Dark Horse. O montante acordado com o dono do Master teria sido de R$ 134 milhões, dos quais R$ 61 milhões teriam sido efetivamente pagos. 

A segunda investigação, sob relatoria do ministro Flávio Dino, apura a atuação da empresa Go Up Entertainment, de propriedade de Karina Gama — produtora de Dark Horse —, e uma suspeita de uso de emendas parlamentares para bancar o longa.

Flávio sustenta não haver ilegalidades em relação ao filme. A prestação de contas integral do longa, entretanto, não foi apresentada publicamente. A produtora responsável entregou à Justiça apenas o demonstrativo dos gastos realizados, sem detalhar a captação e a origem dos recursos utilizados.

A Polícia Federal também identificou elementos relacionados à movimentação dos valores nos Estados Unidos. Segundo relatório encaminhado ao STF, o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro, que está em autoexílio nos Estados Unidos, teria orientado a forma como recursos enviados por Vorcaro poderiam ser administrados em território norte-americano.

As remessas teriam como destino ao fundo de investimentos Havengate, sediado no Texas, supostamente ligado ao financiamento da produção cinematográfica. A PF identificou uma conversa atribuída a Eduardo na qual são discutidos mecanismos para a movimentação dos valores nos Estados Unidos.

“Em 21/03/2025, Thiago Miranda encaminhou a Daniel Vorcaro a captura de tela de conversa atribuída a Eduardo Bolsonaro, na qual eram apresentadas orientações sobre a forma pela qual os recursos poderiam ser geridos nos Estados Unidos, com menção à possibilidade de envio da maior quantidade possível de valores pelo modelo então em curso e referência à disponibilidade de Altieres Santana”, diz a PF. Miranda era interlocutor de Vorcaro com a mídia, e Santana, gestor do fundo no Texas, controlado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo.

Para os investigadores, as mensagens fazem parte de um conjunto de elementos que justificaram a abertura do inquérito sobre a movimentação financeira relacionada ao projeto. O relatório cita um contrato que previa aportes de, aproximadamente, R$ 134 milhões para a produção nacional e aponta uma “elevada discrepância desse valor em relação aos custos normalmente observados em obras brasileiras de semelhante porte”.

Conforme as apurações, o dinheiro passava da Entre Investimentos e Participações Ltda, de Antônio Carlos Freixo Júnior, para o Havengate. A PF também destaca “a coincidência entre o cronograma contratual e as remessas internacionais identificadas pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras)”, além de mensagens nas quais Vorcaro orienta que os pagamentos sejam realizados “via Entre”, do comprovante de transferência ao fundo Havengate e das tratativas envolvendo Eduardo Bolsonaro, Paulo Calixto e Altieres Santana sobre a estrutura financeira utilizada.

A corporação também registrou cobranças relacionadas à liberação dos valores e encontros pessoais com Daniel Vorcaro. ” A partir de agosto de 2025, surgem registros de interlocução direta entre Daniel Vorcaro e o senador Flávio Bolsonaro. No dia 20/08/2025, há mensagens indicando provável encontro presencial entre ambos, ocasião em que Daniel Vorcaro informa horário e Flávio Bolsonaro responde que estava ‘a caminho'”, disse. 

Os agentes afirmam que os elementos reunidos formam “um conjunto coerente de elementos que evidencia justa causa para a instauração da investigação, a fim de esclarecer a origem, o trânsito, a destinação e os beneficiários finais dos valores movimentados”. A reportagem entrou em contato com Eduardo, mas não obteve retorno até a publicação da matéria.

Fonte Correio Braziliense
Foto: Ton Molina/Agência Senado