Brasiliense muda de profissão e cria bolos funcionais e com sabor

Formada em educação física, Adriana Chagas desenvolveu bolos e tortas feitos com ingredientes saudáveis e naturais, sem farinha de trigo e sem açúcar, mas com muito afeto

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Quando, finalmente, Adriana Chagas conseguiu levar adiante a gestação da única filha, após uma sequência de abortos espontâneos, decidiu que mudaria os hábitos alimentares. Apesar de não ser celíaca ou de ter intolerância à lactose, cortou o glúten da dieta e reduziu o consumo de leite. Conseguiu adaptar ingredientes e seguir a dieta sem grandes sacrifícios. Mas, apaixonada por bolo, sentia falta de uma receita que se enquadrasse em seu novo estilo de vida. “Podia comer cuscuz, tapioca, ovo cozido, macarrão sem glúten, mas bolo eu não conseguia.”

Adriana decidiu, então, pegar uma receita de bolo de cenoura da mãe e adaptá-la à sua nova realidade. Substituiu a farinha de trigo por farinha de arroz, mas o resultado não foi o esperado. “O bolo ficou uma farofa”, recorda-se, aos risos. Mas ela não desistiu e foi pesquisar, encontrar uma saída. “Conversando com um amigo que estudava gastronomia, ele explicou que eu precisava associar à farinha de arroz algum outro elemento, como polvilho doce, polvilho azedo ou aveia.” Depois de vários testes, erros e acertos, chegou a uma proporção ideal de polvilho doce e farinha de arroz. “Eu, finalmente, tinha um bolo”, comemora.

De uma família em que a boa mesa é compartilhada por todos, Adriana sempre gostou de cozinhar. “Minha mãe é gaúcha; meu pai, goiano; meu padrasto, pernambucano… tenho influência de todas essas regiões. É uma relação afetiva e ritualista com a comida”, conta. Mas nunca tinha encarado a gastronomia como profissão. Formada em educação física, sempre sonhou em “mudar o mundo” por meio da educação, especialmente infantil. Em 2006, passou uma temporada nos Estados Unidos para estudar inglês e, no contraturno, estagiou em uma escola que casava com os seus sonhos, mas quis o destino que a vida tomasse um novo rumo.

De volta ao Brasil, Adriana casou-se com o noivo, que era dono de uma agência de modelos. Foi dando uma mão ao agora marido na empresa, ajuda daqui, auxilia dali, e, quando viu, passaram-se 11 anos de trabalho intenso no local. Decidiu, então, dar uma virada de chave. “Passei dois anos em um limbo profissional, até me encontrar”, conta. Nesse período, a brasiliense fez uma pós-graduação em educação física e participou do programa Empretec, do Sebrae. Queria entender mais sobre empreendedorismo.

Uma nova carreira

Como um dos trabalhos do curso era criar uma empresa fictícia, ela usou o bolo de cenoura como ponto de partida, mas percebeu que ainda não era um bom produto para ingressar nesse mundo dos negócios. “Precisava de algo mais impactante.” Adriana lembra que comeu um bolo de cacau com abóbora em um restaurante que trabalhava com alimentos saudáveis e com uma pegada detox e achou delicioso. Decidiu, então, criar a própria receita. Assim como fez com o bolo de cenoura, estudou, experimentou, até desenvolver uma versão sem farinha de trigo. “Agora, sim, entendi que tinha um produto com potencial para ser comercializado.”

Adriana começou a vender o seu bolo de cacau com abóbora em 2017, e usou as redes sociais para divulgá-lo. Paralelamente, estudava novas receitas. Um dia, estava na academia e encontrou a chef Mara Alcamin. “Decidi dar uma fatia para ela provar, ela gostou e me convidou para participar de uma feira que teria no Casa Park, da Panela Candanga. Disse para eu levar uns 100 bolos.” A brasiliense aproveitou para levar também outros três sabores: banana com farinha de arroz, batata doce com maçã e goiabada com ameixa. Todos eram adoçados com açúcar demerara. “Vendi tudo e recebi várias encomendas.”

À medida que Adriana ia conversando com os clientes, percebia novas demandas. Uma delas era a retirada do açúcar das receitas. Ela foi, então, estudando formas alternativas de adoçar, e passou a usar a uva-passa numa proporção em que o sabor dela não é evidenciado. Hoje, apenas o bolo de cacau com abóbora recebe açúcar demerara (há, também, a versão sem); os demais, não. Entre as opções, há banana com inhame, batata doce com canela e goiabada com ameixa. Os produtos não são veganos, pois levam ovo, mas ela prepara opções para esse público sob encomenda, assim como para diabéticos.

Durante a pandemia, período em que ela aproveitou para aprimorar a estética dos bolos, Adriana recebeu um pedido de uma cliente que queria uma torta de aniversário para o filho. “De cara, eu disse que não fazia, pois não era confeiteira.” Diante da insistência dela, aceitou o desafio: assou dois bolos, fez recheio, cobertura e enfeitou com morango.

O sucesso foi tanto que ela passou a se aprimorar, criando diversos recheios e coberturas que podem ou não levar açúcar. Tem coco, abacaxi e inhame; banana; creme de inhame com maçã; mix de legumes e castanha-de-caju; e alguns outros que ela vai criando, combinando sabores e texturas. Todos os ingredientes são funcionais, ou seja, são produtos que agem preventivamente na saúde. “Uso pouquíssima farinha de arroz, são bolos leves, que não pesam na digestão.”

A agora confeiteira aperfeiçoou a estética e criou flores de feijão, que são tonalizadas com diferentes frutas. Já a “pasta americana” é feita de coco com inhame. Viraram verdadeiras obras de arte. “Hoje, as tortas são o meu carro-chefe.” Por anos, toda a produção era feita no próprio apartamento, no Sudoeste, até que precisou alugar um espaço para abrigar o ateliê, na vizinhança. Os bolos, vendidos em porções de 350g e 1kg, são congelados e sempre têm para pronta-entrega. As tortas são produzidas sob encomenda. “O congelado permite que a fermentação seja cortada”, detalha Adriana, que conseguiu provar que dá para fazer produtos funcionais com sabor.

Por Sibele Negromonte do Correio Braziliense

Foto: Divulgação/Luara Baggi / Reprodução Correio Braziliense