Temporal deixa rastro de destruição em vários pontos do DF

Tesourinhas da Asa Norte, UnB e Pôr do Sol foram os locais mais prejudicados. Prejuízos ainda não foram calculados

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Alagamentos, destroços e lama foram as imagens com as quais muitos brasilienses se deparam na manhã de sábado (10/2). Tudo isso por causa da tempestade que atingiu o Distrito Federal na sexta-feira. Em vários pontos da Asa Norte, como a Universidade de Brasília (UnB), e no Pôr do Sol o cenário era desolador. “Em apenas quatro horas, choveu quase metade do previsto para o mês de fevereiro no DF. Por isso, desde a noite passada (sexta-feira), mobilizamos uma força-tarefa que tem trabalhado para reparar os estragos causados pela chuva, limpar a rede de drenagem e remover árvores e entulhos”, afirmou o governador Ibaneis Rocha no X.

O chefe do Executivo local disse que o governo tem feito o possível para reduzir o impacto das chuvas no DF. “É importante lembrarmos que em um único mandato isso não seria possível, mas estou comprometido em solucionar grande parte desses desafios. Já iniciamos o projeto Drenar DF na região central, que vai melhorar a capacidade de escoamento das águas pluviais e prevenir alagamentos  que, em várias gestões, foi uma obra esquecida, e estamos avançando para melhorar o sistema de drenagem em Taguatinga e Ceilândia também”, destacou, completando que são obras que demandam tempo para serem concluídas.

Ao Correio, a vice-governadora do DF, Celina Leão, também comentou sobre as ações que o Poder Executivo adotou diante dos estragos. “Estamos mobilizados e atendendo todos os estragos que a chuva causou. Tivemos quase todo o volume de fevereiro, em apenas quatro horas. Graças ao pronto atendimento de todos os nossos órgãos de segurança, não tivemos nenhuma ocorrência grave”, avaliou.

Estragos

Na Asa Norte, os rastros de destruição foram percebidos mesmo após a água baixar. Durante o temporal, motoristas tentaram passar por algumas dessas vias e tiveram os veículos danificados. Várias placas de automóveis foram perdidas. Caminhões-pipa da Companhia Urbanizadora da Nova Capital Federal (Novacap) fizeram a limpeza, concentrando-se nas quadras 109/110 e 111/112.

A tesourinha da 211 Norte foi uma das que ficaram cobertas de água. Benedito Suarez, 49 anos, morador do Jardins Mangueiral, contou que perdeu o para-choque e a placa do carro comprado no ano passado. “Minha mulher e filha estavam no veículo. Eu estava fazendo hemodiálise quando ela me ligou desesperada. Falaram que a água veio muito rápido. Infelizmente, só encontrei uma peça. Meu prejuízo será maior do que R$ 600”, lamentou.

Outro lugar bastante prejudicado foi a UnB. “As já conhecidas deficiências no sistema de drenagem de águas da Asa Norte, somadas à topografia da região, propiciaram o alagamento de parte do subsolo da parte central do Instituto de Ciências Central (ICC centro) e do auditório do Departamento de Engenharia Florestal.”, afirmaram, em nota, a reitora Márcia Abrahão e o vice-reitor Enrique Huelva. 

O Instituto de Física (IF), segundo a UnB, foi a unidade mais prejudicada, “com danos significativos em equipamentos, documentos, livros e mobiliário”. No auditório do Departamento de Engenharia Florestal a água chegou a mais de um metro de altura. O Correio foi ao local, onde os funcionários trabalhavam desde as 7h. Uma mobilização entre os zeladores foi realizada para reparar os danos causados. 

O professor de engenharia mecânica Adriano Fabro, 39, que acompanhava a limpeza, disse que as chuvas sempre causam problemas, mas não dessa forma. “Na minha sala, as perdas foram os móveis. Ainda bem que não perdemos os equipamentos. Está um caos aqui. Claramente não temos uma estrutura para suportar uma chuva de verão”, destacou. Outro educador, que preferiu não se identificar, relatou que esses problemas começaram após a privatização de alguns serviços. “Pararam de fazer limpezas nas calhas pluviais. Meus problemas foram apenas com a sujeira, mas tenho colegas que não tiveram a mesma sorte”, descreveu.

Asfalto se foi

Outra região bastante afetada foi o Pôr do Sol. Os moradores relataram que toda vez que chove é a mesma confusão. Na quadra 108, o asfalto foi totalmente arrancado e levado pela água. Raimundo Nobre, 49, destacou que essa pavimentação foi colocada há apenas 15 dias. “Não adianta recapear a avenida se não colocarem meios para o escoamento. Todo ano é o mesmo problema. Não podemos deixar nada na rua, pois será arrastado. Cadê a drenagem? É muito complicado viver nessa situação”, lamentou.

O aposentado João Alves, 74, sofre bastante com as fortes chuvas, porque tem dificuldades para se locomover. Para ele, sair de casa é uma missão muito difícil. “Meu portão ficou cheio de pedras na entrada e é impossível abri-lo. Para entrar em casa, meu filho precisou pular o muro. Só guardamos o carro porque pedimos para uma vizinha emprestar a garagem. Se alguém passar mal, nem mesmo uma ambulância chega até nós”, queixou-se.

Planejamento

Para o urbanista Frederico Flósculo, existem dois grandes motivos para as chuvas causarem tantos problemas. “O primeiro, é a sucessão de erros de planejamento e crescimento urbano sem se atentarem para as variáveis ambientais, como preservação e permeabilização do solo. Estamos repetindo os piores erros de exemplos de urbanismo do Brasil. Esses erros mostram que Brasília não é uma cidade planejada”, opina. A outra causa são as variações climáticas. “O clima se tornou instável e muito difícil de prever. Ocorrem chuva e seca em locais que não aconteciam antes “, explica.

O que se chama de planejamento urbano no DF, para o urbanista, é improviso. “O governo precisaria fazer um Plano Diretor de Ordenamento Territorial (PDOT) que contivesse diretrizes de defesa civil contra alagamentos, desabamentos, deslizamentos de terras, entre outras coisas. Precisam responder isso com planejamento. Tudo é totalmente dedicado a conceder às construtoras imobiliárias mais chances para construir”, finaliza.

O deputado distrital Max Maciel (PSol) também aborda a questão. “A falta de planejamento é assustadora, leva a cidade inteira ao colapso, pois, mesmo com anos de aviso, (o governo) não investe o suficiente em drenagem urbana”, avaliou. “Os alagamentos são provocados pela especulação imobiliária e sua construção voraz, que não leva em consideração em nenhum momento impactos ambientais que as grandes obras trazem”, acrescentou o parlamentar.

Sobre Celândia, sua base eleitoral, Max Maciel disse que “a região cresceu muito e não tem rede de drenagem compatível com seu tamanho”. O projeto Drenar-DF começou pela área central do Distrito Federal e deixou a periferia abandonada”, concluiu.

Obra

Drenar-DF

Prometendo dar um fim aos problemas de alagamento, as obras do Drenar DF, na Asa Norte, têm previsão de entrega até o fim de junho deste ano. Ao todo, estão sendo executados 7,68 km de túneis, dos quais mais de 5 km já estão escavados, segundo a Companhia Imobiliária de Brasília (Terracap).

Toda a obra do Drenar DF foi dividida em cinco lotes, com investimento de R$ 180 milhões, com recursos da Terracap. Os trabalhos estão sendo executados por cinco empresas, contratadas pela própria companhia.

A previsão é de construir 104 poços de visita. Apenas os poços de visita estão ao alcance dos olhos das pessoas que passam pela região. A escavação e a estruturação da nova rede subterrânea — entre 6m e 22m de profundidade — são realizadas de forma manual, com pás e picaretas.

Além disso, está sendo construída uma ampla rede de drenagem pluvial, complementar ao sistema já existente, que começa nas imediações da do Estádio Nacional Mané Garrincha, descendo à via L4 Norte, e, depois, ao Lago Paranoá.

Também está sendo criada uma bacia de detenção, em uma área de 36 mil m², dentro do Parque Urbano Internacional da Paz, localizado no Setor de Embaixadas Norte. O projeto prevê que a lagoa sirva de reservatório para as águas das chuvas captadas no início da Asa Norte e direcionadas até a região, onde será feita a qualificação de água pluvial.

Ocorrências

Até o fechamento da edição, o Corpo de Bombeiros havia divulgado um balanço de atendimentos feitos das 19h de sexta-feira (9/2) até as 7h30 de sábado (10/2). Entre eles, 31 ocorrências de inundação e 13 de queda ou ameaça de queda de árvore. A Novacap informou que desobstruiu redes na Asa Norte, no Noroeste e em Ceilândia. Nos setores Bancário Norte e de Autarquias Sul foram removidas árvores e lixo das ruas. O Hospital Cidade do Sol, em Ceilândia, também inundado, foi limpo e teve a água retirada. Nas proximidades, foi feita uma escavação para conter a força da água. Foram feitas ainda intervenções no P Sul. A companhia disse que só terá um levantamento completo na próxima semana.

Clima

De acordo com o Inmet, foram registrados 192 milímetros de chuva na capital federal, de 1º a 10 de fevereiro. Na média, os temporais que atingiram Brasília entre sexta-feira (9/2) e sábado (10/2) representaram quase metade da chuva prevista o mês de fevereiro. A estação do Gama ultrapassou a média mensal ao registrar 195,8 mm — 9% a mais do que todo o esperado para o mês. A chuva deve continuar nos próximos dias. Para amanhã, é esperado tempo com nuvens, pancadas, trovoadas e rajadas de vento, porém, as chuvas devem ser menos intensas. Para terça-feira, a tendência é de tempo mais aberto, com sol entre nuvens.

*Estagiário sob a supervisão de Malcia Afonso

Por Arthur de Souza, Isabela Stanga do Correio Braziliense

Foto: Ed Alves/CB/DA.Press / Reprodução Correio Braziliense