Palácio Itamaraty reabre as portas ao público neste sábado (23/3)

O espaço guarda tesouros de valor inestimável, como obras de Cândido Portinari, Debret, Athos Bulcão e Pedro Américo. Para visitar o local, é preciso fazer agendamento, por meio do site do Ministério das Relações Exteriores

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Brasilienses e turistas têm novamente a oportunidade de conhecer por dentro uma das criações mais icônicas de Oscar Niemeyer, o Palácio Itamaraty, que estava fechado para o público desde agosto do ano passado. Um dos símbolos da arquitetura modernista brasileira, a edificação, inaugurada em 1970, reabre as portas hoje. O acervo tem 3,5 mil obras e os roteiros são conduzidos por profissionais capacitados do serviço de visitação cívico-educativa do Itamaraty em português, espanhol, francês, inglês e Libras. O Correio mostra algumas das maravilhas expostas, para que se tenha ideia do quanto o Itamaraty é magnífico.

No tour de uma hora e 15 minutos, o visitante pode ver pinturas, esculturas, painéis, mobiliário e outras peças que contam um pouco da história da arte brasileira. O clássico e o moderno convivem em harmonia.

O deslumbre começa antes mesmo de adentrar a edificação, que parece flutuar sobre o espelho d’água com paisagismo de Roberto Burle Marx. As colunas finas de concreto que se unem no alto em forma de arco dão ainda a sensação maior de leveza.

Dentro, obras contam um pouco da história do Brasil e dialogam com a razão de existir do espaço. Após subir a escada em espiral, que parece desafiar as leis da física, o visitante se depara com a escultura metálica Metamorfose, de Franz Weissmann. A peça muda de formato, a depender do ponto de onde é observada. Elisa Breternitz, coordenadora-geral de Patrimônio Histórico do Palácio do Itamaraty, explica que a obra é uma alusão ao respeito aos diferentes pontos de vista, valor fundamental para a diplomacia.

No térreo, um grande salão se estende, desde um jardim interno aos fundos do palácio — também de Burle Marx, com espécies da flora de florestas tropicais, com folhas grandes e de verde intenso, como taiobas e costelas-de-adão — até a parte da frente. Na parede, um painel em relevo no mármore, de Athos Bulcão.

“Não só toda a nossa frente é transparente, como o palácio não tem paredes, o que representa a abertura do Brasil para o mundo. Essa treliça delimita o espaço, mas também permite a passagem de iluminação e de ventilação”, observa a coordenadora. “É bom lembrar que o Itamaraty não é um museu. É um palácio vivo, usado diariamente, o que pode afetar a nossa agenda de visitação. Se o presidente da República recebe outro presidente, lógico que vai haver toda uma estrutura de segurança posta para funcionar”, ressalta.

Atrás da treliça, no segundo pavimento, a Sala dos Tratados abriga a mesa onde são assinados os acordos internacionais em visitas de dirigentes de outros países. “O local tem elementos que o qualificam como um palácio, apesar de ser moderno, com esses grandes espaços abertos, sensação de grandeza, mas ele também tem símbolos que ou foram desenhados para representar o Brasil propositalmente ou, eventualmente, incorporadas à identidade nacional.”

Ainda na Sala de Tratados, os bustos de Alexandre de Gusmão, Duarte da Ponte Ribeiro e Barão do Rio Branco homenageiam as personalidades que ajudaram a moldar as fronteiras do Brasil que conhecemos hoje, sem recorrer a conflitos bélicos, apenas por negociações. “Isso é um símbolo da diplomacia”, define Elisa. Perto dali está o painel de Alfredo Volpi, uma das obras que podem ser vistas por quem passa em frente ao Palácio, à noite, quando é iluminado.

O terceiro pavimento é o mais nobre, explica Elisa Breternitz. Há preso ao teto um lustre denominado Revoada dos pássaros, de Pedro Correia de Araújo. A peça tem mais de uma tonelada de puro metal, com textura que lembra galhos de árvore e apenas um ponto de iluminação.

Boa parte do acervo é de autoria de artistas de renome, brasileiros ou naturalizados, e há peças antigas, de autoria desconhecida. Estão presentes obras dos pintores Pedro Américo, criador do clássico O grito do Ipiranga, e Jean-Baptiste Debret, com A Coroação de Dom Pedro 1º

A Sala Portinari tem como destaques obras do brasileiro Cândido Portinari que representam duas regiões: Jangadas do Nordeste e Cena Gaúcha.

O contraste entre o mobiliário dos séculos 18, 19 e início do 20 e a arte modernista dá nome à Sala Duas Épocas, que abriga a obra O pássaro — de bronze com base de granito — de Marianne Peretti. O tapete com iconografia marajoara atesta os elementos brasileiros incorporados ao art decor nacional. A escultura Mulher e sua sombra é assinada por Maria Martins, influente no movimento surrealista.

O terraço, com vista para o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto, tem uma abertura para o céu ao centro, sob a qual fica mais um jardim de Burle Marx. “É como se fosse uma varanda para a República”, descreve Elisa Breternitz. Victor Brecheret assina a escultura Nu deitado, exposta no terraço, assim como mais uma de Maria Martins e uma de Lasar Segall, ambas dispostas no jardim.

Conectada ao terraço, a Sala Brasília é o maior espaço para banquetes do Palácio do Itamaraty, usada também para grandes reuniões com figuras importantes do poder, como o presidente da República. A parede ao fundo é coberta por uma tapeçaria gigantesca desenhada por Burle Marx. “Essa tapeçaria é muito especial e representativa para o Brasil e para Brasília, representando a vegetação do Cerrado, com tons terrosos e formas retorcidas, que lembram os galhos das árvores do bioma”, explica Elisa.

Visitações

As visitações ao Palácio do Itamaraty ocorrem exclusivamente mediante agendamento eletrônico prévio, de terça-feira a domingo, das 8h30 às 18h, sujeitas a alterações, sem aviso, que podem ocorrer devido à agenda oficial do Ministério das Relações Exteriores (MRE). Informações sobre o agendamento e as regras de visitação estão disponíveis no site www.gov.br/mre/pt-br/assuntos/palacio-itamaraty/visite-o-itamaraty.

O terraço, com vista para as sedes dos Três Poderes, tem uma abertura para o céu ao centro, sob a qual fica um jardim de Burle Marx. “É como se fosse uma varanda para a República”, descreve Elisa Breternitz.

Por Naum Giló do Correio Braziliense

Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press / Reprodução Correio Braziliense