Fraudes no setor de combustíveis vão atingir o Entorno

Em entrevista, Paulo Tavares disse que diferenças grandes no preço da gasolina são "alerta claro de fraude" e que práticas ilegais chegam a movimentar R$ 30 bilhões de sonegação por ano no país

Os jornalistas Adriana Bernardes e Roberto Fonseca receberam no programa CB.Agro desta sexta-feira (29/8) o presidente do Sindicombustíveis-DF, Paulo Tavares, para falar sobre os desdobramentos da Operação Carbono Oculto, que ocorreu na última quinta (28/8) em oito estados contra o PCC, o Primeiro Comando da Capital. A ação apura fraudes no setor de combustíveis, com indícios de lavagem de dinheiro e envolvimento de organizações criminosas. Questionado se a investigação vai atingir o Distrito Federal, Tavares foi direto. “No Entorno, com certeza, vai chegar. Tenho alertado isso há tempos”, indicou.

Segundo o presidente do Sindicombustíveis-DF, sinais de irregularidades já são perceptíveis na região próxima a Brasília, principalmente em postos que praticam preços muito abaixo da média de mercado. “Nós temos um decreto, o 10.634/2021, que obriga a exposição da formação do preço. Se você vir um posto com diferença de preço da maioria, de R$ 0,80 até R$ 1, pode desconfiar”, afirmou.

Impacto para o consumidor

De acordo com  Tavares, os esquemas fraudulentos prejudicam diretamente a sociedade. “Estamos falando de R$ 30 bilhões de sonegação de impostos por ano no Brasil. Então, você está tirando recursos dos Estados, da União, que poderia ser revertido em prol da sociedade”, destacou. Ele explicou que a operação revelou movimentações de até R$ 30 bilhões em três anos, além de cifras bilionárias paradas em contas, usadas para agiotagem e aquisição de ativos ligados ao setor, como usinas de etanol, distribuidoras e caminhões.

Outro ponto sensível abordado é a qualidade do combustível. Segundo o dirigente, há fraudes que envolvem a importação irregular de nafta e o uso do metanol, substância tóxica que chegou a provocar mortes no interior de São Paulo. “É difícil de identificar, mas (o metanol) estraga o veículo, e isso é uma das formas de você misturar um produto que tem um posto menor para ganhar na fraude tributária”, alertou.

“Tem que desconfiar”

Questionado sobre como o consumidor pode identificar postos envolvidos nesse tipo de prática, Tavares foi objetivo. Ele afirma que as diferenças muito grandes no preço são um sinal de alerta. “Hoje é muito natural você ter uma diferença de concorrência entre 10 até 30 centavos. Mas quando você vê gasolina abaixo de R$ 6,00, na minha opinião, tem que desconfiar”, disse.

Ele ressaltou que práticas como o dumping, que significa vender combustível a preço de custo ou até abaixo, para quebrar concorrentes, já ocorreram no DF e precisam ser investigadas. “É preciso investigar, porque ele pode prejudicar o mercado. E aí  vai acontecer, como aconteceu em São Paulo, um pequeno revendedor quebra, e qual pode ser a única solução para ele? Vender o seu negócio de família num preço muito baixo. Para quem? Para o crime organizado”, afirmou.

Etanol e perspectivas de preços

O presidente do Sindicombustível-DF também comentou o impacto recente do aumento de 27% para 30% na mistura de etanol à gasolina. Segundo ele, a medida deve manter os preços pressionados, já que não há sobra de produção suficiente no mercado. “O preço do litro de etanol hoje está praticamente no mesmo valor da gasolina tipo A”. Diante do cenário, ele entende que, em relação ao preço do etanol, não haverá redução no valor nos próximos meses. “Eu não vejo em cima de números. O que os usineiros vêm alertando é que a safra vai acabar. O que sobraria de safra vai ser consumido devido a esse aumento de 3% da mistura da gasolina no anidro”, avaliou.

Por Resenha de Brasília

Fonte Correio Braziliense          

Foto: Carlos Vieira/CB