A tradição queijeira brasileira tem conquistado cada vez mais espaço nas prateleiras de empórios especializados e nas mesas de consumidores brasilienses dispostos a pagar mais por produtos artesanais e de qualidade diferenciada. O que antes era visto apenas como um item básico da cesta alimentar agora ganha status de iguaria, impulsionado por processos de maturação, produção limitada e reconhecimento em concursos nacionais e internacionais.
No Distrito Federal, a cadeia de laticínios movimenta a economia rural e reúne produtores que apostam na agregação de valor para se destacar no mercado. Dados da Emater-DF mostram que o Valor Bruto da Produção (VBP) da cadeia de laticínios passou de R$ 34,7 milhões em 2024 para R$ 37,8 milhões em 2025, um crescimento de aproximadamente 9% em um ano. No mesmo período, o número de produtores de queijos cadastrados pela empresa aumentou de 129 para 134.
Segundo a extensionista rural da Emater-DF e engenheira de alimentos Milena de Oliveira, o segmento tem se consolidado como uma importante alternativa para ampliar a renda no campo. “O segmento vem se consolidando como uma importante alternativa de agregação de valor à produção leiteira, ampliando a renda dos produtores rurais e fortalecendo a agroindústria local”, afirma.
A cadeia produtiva de laticínios no Distrito Federal reúne uma ampla variedade de produtos derivados do leite. Além dos tradicionais queijos frescais, muçarela e ricota produzidos a partir do leite bovino, a região também se destaca pela fabricação de queijos de cabra, búfala e ovelha, incluindo variedades como burrata, boursin, coalho, queijos maturados e receitas autorais desenvolvidas pelos próprios produtores.
Lucas Douglas de Oliveira, especialista em queijos e proprietário da Capital Empório – Queijos Artesanais, explica que a principal diferença entre um queijo comum e um queijo artesanal é a identidade do produto. Segundo ele, os queijos artesanais carregam características únicas da região onde são feitos. “O queijo comum busca padronização; o artesanal busca identidade, tradição e autenticidade”, resume.
Ao falar sobre o Centro-Oeste, o especialista ressalta que a região possui condições favoráveis para a produção queijeira graças à qualidade da água, das pastagens e à tradição dos produtores locais. Ele destaca ainda produtos tradicionais, como o requeijão moreno, o requeijão de corte e a trancinha, que ajudam a construir a identidade regional. “Eu costumo dizer que onde há água boa, há potencial para produzir grandes queijos”, afirma.
Higiene
O Distrito Federal vem ganhando destaque nacional na produção de queijo. Uma das queijarias que se destacam é a Cabríssima Queijaria Artesanal, especializada em derivados de leite de cabra no DF. Segundo a proprietária Giovana Navarro, a qualidade do produto final está diretamente ligada ao cuidado com os animais e à higiene adotada na propriedade. “Para fazer um bom queijo, precisamos dessas etapas essenciais.”
Giovana ressalta a mão de obra especializada e a alimentação dos animais entre os principais gastos da produção, além dos investimentos exigidos para atender às normas sanitárias. Após a obtenção de um leite de qualidade, entra em cena o trabalho do queijeiro, responsável por acompanhar todas as etapas da produção, desde a elaboração da receita até a salga e a maturação. “Cada receita tem um detalhe, um carinho, um cuidado”, afirma.
Para a produtora, a valorização dos queijos artesanais ganhou força especialmente após a pandemia. Segundo ela, os consumidores passaram a buscar alimentos com origem conhecida, produzidos em menor escala e associados a hábitos mais saudáveis. “As pessoas buscam alimentos mais saudáveis, com origem e o toque especial do artesanal. Com essa nova realidade, a procura pelos produtos artesanais aumentou, proporcionando novas oportunidades para os queijos especiais.”
Tradição
Na capital, também há espaço para tradições que vêm de fora e que, aqui, ganham um toque especial brasiliense. Essa é a história da Apulia Queijos e Mozzarellas Artesanais Italianos, que começou em 2015, quando o italiano Andrea Attanasio decidiu trazer para Brasília a tradição queijeira de sua terra natal, a região da Puglia, no sul da Itália.
Especializada em queijos frescos e meia cura, a Apulia produz itens tradicionais da culinária italiana, como burrata, mozzarella fior di latte, stracciatella, ricota pugliese e provolones artesanais. Andrea destaca que a produção segue métodos tradicionais e utiliza leite fresco proveniente da própria fazenda. “Nossa produção é totalmente artesanal, respeitando técnicas centenárias da nossa tradição. Essa combinação resulta em um produto com sabor complexo, textura única e aroma característico”, afirma.
Apesar do reconhecimento conquistado pelo setor, os desafios permanecem. Andrea afirma que os custos com matéria-prima e mão de obra têm pesado cada vez mais na produção artesanal. Ainda assim, ele observa um crescimento consistente da procura por produtos diferenciados. “A demanda por queijos artesanais e especiais teve um aumento considerável recentemente, consolidando-se como uma das principais tendências da gastronomia brasiliense“, diz.
Capacitação
Nos últimos anos, o Governo do Distrito Federal tem apostado em ações voltadas ao fortalecimento da cadeia produtiva. Um dos principais marcos foi o Projeto de Desenvolvimento do Queijo Artesanal no Distrito Federal – Selo Arte, coordenado pela Emater-DF em parceria com diversos órgãos públicos e entidades do setor.
Entre os resultados estão a capacitação de produtores, o incentivo à regularização sanitária das queijarias, a criação da Rota do Queijo do Distrito Federal e a realização do primeiro concurso distrital de queijos artesanais, que reuniu 20 produtores e 66 produtos inscritos em 2024.
Milena destaca ainda que a valorização dos queijos artesanais gera impactos que vão além da propriedade rural. “A produção de queijos artesanais permite ao produtor agregar valor ao leite, reduzindo a dependência da venda da matéria-prima in natura e aumentando sua margem de rentabilidade”, explica. Segundo ela, o setor também contribui para a geração de empregos, o fortalecimento da agroindústria local e o crescimento do turismo gastronômico nas áreas rurais do DF.
Fonte Correio Braziliense
Foto: Ed Alves/CB/D.A Press











