Conheça a bucólica casa de Niemeyer no Park Way, aberta à visitação pública

Com história que acompanha a trajetória do arquiteto, a residência que Oscar Niemeyer construiu para ele morar se destaca pela arquitetura colonial simples e serve como espaço de exposições de arte e outras atividades culturais

Destoante das construções modernistas do Eixo Monumental, a casa do lendário arquiteto Oscar Niemeyer, projetada por ele para uso pessoal, mostra a versatilidade da mente por trás do cenário de Brasília. Atualmente, a moradia, desenhada em um estilo colonial, faz parte do patrimônio da Universidade de Brasília (UnB) e é dedicada a exposições de arte e outras atividades culturais organizadas pela instituição de ensino. Localizada no Setor de Mansões do Park Way, na Quadra 26, Conjunto 3, a Casa Niemeyer têm visitação aberta ao público de terça a domingo, das 9h às 19h.

A história da Casa Niemeyer acompanha a trajetória do arquiteto que, após a construção da capital federal, passou a trabalhar como docente na UnB. Sabe-se que Niemeyer frequentou o local de 1963 a 1965, até pedir demissão do cargo na universidade, junto a outros 222 professores, após o início do regime militar. Quinze anos após ser desocupada, a casa foi comprada pela UnB em 1980, e em 1987 tornou-se a primeira sede do projeto Casa da Cultura da América Latina, projeto de divulgação cultural da universidade, que foi realocado para o Setor Comercial Sul em 1989 — onde ainda opera.

Foi em 2017 que a casa passou a integrar o Decanato de Extensão da UnB como Casa Universitária de Cultura, um espaço de diálogo artístico entre a comunidade universitária e o público. Hoje, a Casa Niemeyer, a Casa da Cultura da América Latina, o Espaço da Memória da UnB e o Memorial Darcy Ribeiro (Beijódromo) integram as casas universitárias de cultura, recebendo alunos extensionistas para atuar como guias das exposições. Apesar do caráter acadêmico, a Casa Niemeyer recebe visitas frequentes de famílias e amantes de arquitetura e arte contemporânea, diz o professor do Departamento de Artes Visuais, Gregório de Oliveira, um dos responsáveis pela curadoria do museu.Play Video

O Correio visitou a casa que, apesar de possuir um estilo intimista e colonial, integra elementos conhecidos da arquitetura modernista de Niemeyer, como a presença de um telhado suspenso por colunas de concreto, paredes curvas e janelas sequenciadas. O professor da UnB explica que a modernidade do local não se limita apenas à sua fundação, mas a moradia foi construída para captar a iluminação natural e circulação de ar, além de ter sido construída em um plano baixo do terreno, o que trazia privacidade ao arquiteto. “São em pequenos detalhes que percebemos que ela teve uma construção muito bem pensada”, diz Oliveira.

Algumas das instalações da casa incluem um espelho d’água, que faz parte do desenho da casa mas, atualmente, se mantém fora de funcionamento. Também pode-se visitar o jardim interno que compõe um dos cômodos da casa e, durante as exposições, também serve como espaço para as manifestações. Além dos azulejos na fachada da casa que remetem à obra de Athos Bulcão, mas não são originais. Trata-se, explica Oliveira, de uma intervenção feita recentemente em diálogo com os azulejos tradicionais da capital federal.

Destaca-se na construção uma piscina, de 30 metros de comprimento, que possui um formato desigual. Ao lado do tanque, repousa uma réplica da escultura Guanabara, do artista ítalo-brasileiro Alfredo Ceschiatti, colaborador frequente de Niemeyer. Para Oliveira, a piscina e a escultura não estão juntas por acaso, e o formato irregular do tanque remete à mulher curvilínea representada na obra de Ceschiatti. São essas características, aponta o professor, que fazem que o museu receba um público fiel de apreciadores da obra de Oscar Niemeyer, e componha o roteiro arquitetônico da capital federal.

Atualmente, o Decanato de Extensão possui projetos para ampliação do reconhecimento da casa, com a restauração do local, por meio de pedido interno na UnB; a obtenção do Selo do Conselho de Arquitetura e Urbanismo CAU-DF; e o tombamento como patrimônio material pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Exposição Latossolo 

A partir de hoje, a Casa Niemeyer recebe uma nova exposição, intitulada Latossolo. Diversos artistas, em sua maioria brasilienses, irão expor no local obras que abordam a relação da arte com o solo e o meio ambiente. A iniciativa junta diversas manifestações culturais, incluindo fotografia, poesia e artes plásticas. 

Uma das artistas convidadas é Nuára Visintin, que possui trajetória na capital como fotógrafa e produtora cultural. Desta vez, ela expõe um trabalho inspirado na seca do Cerrado, quando, com o fenômeno da estiagem, as plantas se retraem e são cobertas pelo solo seco e poeira. Meses depois, diz a Nuára, a vegetação volta a ganhar cor. “É esse fenômeno quando as plantas ficam totalmente cobertas pela terra, quase sem respirar. Só quando voltam as chuvas elas aparecem vivas e superbonitas”, conta. Ela apresentará fotos dela mesma, cobertas de terra, e emolduradas.

Visitação

Casa Niemeyer — Setor de Mansões do Park Way, na Quadra 26, Conjunto 3

  • Visitas gratuitas de terça aos domingos, das 9h às 19h 
  • Visitas internas são fechadas durante a montagem de exposições
  • Instagram: casaniemeyer_unb

*Estagiário sob a supervisão de Márcia Machado

Por Resenha de Brasília
Fonte Correio Braziliense
Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press