Senado avança pautas com impacto bilionário nas contas públicas

Em momento de relação abalada com Alcolumbre, Planalto vê aprovação de pautas com potencial para impactar fortemente as contas públicas. Presidente do Congresso freia, porém, a PEC do fim da escala 6x1, uma das prioridades do Executivo

Em meio às relações estremecidas com o Palácio do Planalto, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), paralisou pautas consideradas prioritárias pelo governo e liberou para votações propostas que terão forte impacto nas contas públicas.

Na quarta-feira, avançaram três propostas com potencial para abalar os cofres da União. O Senado aprovou a criação de uma aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde, deu aval ao aumento do piso salarial de médicos e dentistas e avançou na renegociação de dívidas do agro.

O projeto que cria mecanismos para renegociação de dívidas do setor agropecuário deve ter um impacto de aproximadamente R$ 140 bilhões ao longo de 10 anos, na estimativa do Ministério da Fazenda. Na véspera da aprovação, o titular da pasta, Dario Durigan, reuniu-se com Alcolumbre na tentativa de construir um acordo, sem sucesso.

Ao justificar a decisão de levar o texto ao plenário, o presidente do Senado afirmou que vinha sendo pressionado por parlamentares para pautar o texto. Ele argumentou que o entendimento entre governo e senadores não havia sido alcançado.

Também no Senado, duas comissões aprovaram propostas que ampliam benefícios para profissionais da saúde. Uma delas cria aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde e agentes de combate às endemias. A outra eleva o piso salarial de médicos e cirurgiões-dentistas.

As iniciativas de Alcolumbre ocorreram dias após o próprio senador defender cautela na análise de projetos que geram despesas para a União. Durante sessão plenária, ele afirmou que o período pré-eleitoral dificulta a rejeição de propostas populares e alertou para os impactos fiscais de medidas aprovadas sem avaliação aprofundada.

“No ano de eleição, isso aqui é muito complexo. O que eu botar para votar, todo mundo vai votar ‘sim’ por conta da eleição, e vai ter que arrumar 10 Brasis para pagar”, afirmou.

Por outro lado, a PEC que extingue a escala de trabalho 6×1 e reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas, de interesse do governo, teve um freio. Embora o texto tenha chegado ao Senado após aprovação da Câmara, no fim de maio, permanece sem despacho para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), etapa necessária para o início da tramitação.

Nos bastidores, interlocutores relatam que Alcolumbre havia condicionado o avanço da matéria a uma conversa direta com Lula. Segundo fontes ouvidas pelo Correio, o chefe do Executivo sinalizou disposição para retomar o diálogo com o senador, movimento visto por aliados como essencial para destravar uma das principais bandeiras defendidas pela base governista neste ano.

A relação entre Lula e Alcolumbre, entretanto, atravessa um período de desgaste. Integrantes do Congresso atribuem parte do distanciamento à indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para a vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). Alcolumbre defendia o nome do ex-presidente da Casa Rodrigo Pacheco (PSD-MG) para o posto. Lula insistiu com Messias, que acabou rejeitado pelo plenário do Senado.

Além da demora na tramitação da PEC 6×1, parlamentares relatam insatisfação com o cancelamento de reuniões entre lideranças e a presidência do Senado para discutir o tema. Reservadamente, congressistas afirmam que Alcolumbre tem “sentado na pauta” ao evitar deliberações sobre projetos de interesse do governo enquanto permite o avanço de matérias que enfrentam resistência da equipe econômica.

Em nota divulgada nessa quinta-feira, a equipe econômica do governo alertou para os impactos de nove propostas em tramitação no Congresso, inclusive a que renegocia dívidas do agro. “As estimativas combinam renúncias de receita e despesas obrigatórias, incluindo equalização de taxas juros e impactos previdenciários, que afetam as contas públicas de maneira direta. As médias anuais pressupõem distribuição uniforme dos custos, sem atualização monetária, de modo que o impacto efetivo em cada exercício pode ser superior”, explica o comunicado.

De acordo com o Ministério da Fazenda e o Ministério do Planejamento e Orçamento, se todas as nove medidas apontadas pelas pastas forem aprovadas, podem gerar um custo adicional de R$ 111 bilhões por ano.

Entre as propostas está, também, o Projeto de Lei Complementar 108/2021, que eleva o teto do Simples Nacional, e, de acordo com o governo, é a que pode provocar o maior impacto. Por ano, a renúncia de receita seria de R$ 50 bilhões. Atualmente, o PLP é discutido em uma comissão especial na Câmara.

Confira os projetos em tramitação e o impacto fiscal:

PL 5.122/2023 — renegociação de dívidas com equalização de taxas de juros pela União
Impacto estimado: até R$ 140 bilhões em 13 anos.

PLP 108/2021 — ampliação do teto de enquadramento do Simples Nacional
Impacto estimado: renúncia de receita de R$ 50 bilhões por ano.

PEC 231/2019 — ampliação do Fundo de Participação dos Municípios (FPM)
Impacto estimado: redução de R$ 10 bilhões por ano nas receitas líquidas da União.

PEC 5/2023 — ampliação da imunidade tributária para templos religiosos
Impacto estimado: custo mínimo de R$ 10 bilhões por ano.

PEC 383/2017 — vinculação de recursos ao Sistema Único de Assistência Social (SUAS)
Impacto estimado: despesa adicional média de R$ 9 bilhões por ano.

PL 4.728/2020 — criação de um novo Programa Especial de Regularização Tributária (Pert)
Impacto estimado: R$ 8,8 bilhões por ano.

PL 1.365/2022 — instituição de piso salarial para médicos e cirurgiões-dentistas
Impacto estimado: R$ 8,4 bilhões por ano para a União, sem considerar estados, municípios e a rede Ebserh.

PEC 14/2021 — aposentadoria diferenciada para agentes comunitários de saúde e agentes de combate às endemias
Impacto estimado: R$ 3 bilhões por ano.

PLP 11/2026 — benefícios tributários para entidades sem fins lucrativos
Impacto estimado: renúncia de receita de R$ 1 bilhão por ano.

Fonte Correio Braziliense
Foto: Carlos Moura/Agência Senado