Apesar de a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro estar longe dos holofotes desde que anunciou sua saída da presidência nacional do PL Mulher, aliados apostam que o recolhimento representa apenas uma pausa em meio às turbulências das últimas semanas e enxergam nela a principal liderança feminina da direita para as eleições de 2026.
Interlocutores ouvidos pelo Correio afirmam que Michelle tem dedicado esse período à reflexão após a repercussão do vídeo em que declarou ter sido “humilhada” pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A crise expôs divergências dentro do núcleo político da família Bolsonaro e provocou reações intensas no campo conservador.
Segundo essas fontes, parte do desgaste enfrentado pela ex-primeira-dama não procede de adversários políticos, mas de integrantes do próprio grupo bolsonarista. “Michelle vem sendo fortemente atacada mais por integrantes da direita do que da esquerda”, relatou uma pessoa próxima à ex-primeira-dama. Ainda assim, a avaliação predominante entre seus aliados é que sua influência permanece intacta.
Essa percepção encontra respaldo em números. Pesquisa Meio/Ideia, divulgada nesta semana, apontou Michelle como a mulher mais poderosa do Brasil na avaliação espontânea dos entrevistados. Ela foi citada por 15,4% dos participantes, à frente da primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, que registrou 9%, e da ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia, com 4,5%.
O levantamento também mediu a repercussão dos vídeos divulgados pela ex-primeira-dama no fim de junho. Para 35% dos entrevistados, as declarações de Michelle sobre o conflito com Flávio Bolsonaro são mais verdadeiras do que falsas. Outros 29% consideram as afirmações totalmente verdadeiras.
O desempenho reforçou a avaliação de aliados de que a ex-primeira-dama preserva um capital político próprio e que ultrapassa as estruturas partidárias do PL.
Uma das vozes mais enfáticas nessa defesa é a da senadora Damares Alves (Republicanos-DF). Em entrevista ao Correio, ela atribuiu as críticas direcionadas a Michelle ao temor que adversários e setores do próprio campo conservador teriam diante do crescimento de sua influência política.
“Os ataques sistemáticos contra Michelle Bolsonaro são uma tentativa clara de desgaste e refletem o receio dos adversários em relação ao seu capital político. Trata-se de uma estratégia para tentar isolar e desconstruir a imagem de uma liderança feminina que tem forte capacidade de mobilização popular. Ela fala ao coração das pessoas como nenhum outro”, afirmou.
Para Damares, Michelle reúne atributos que a credenciam para disputar cargos majoritários. “É líder nas pesquisas, tem carisma, tem pautas, tem discurso. É a nossa grande esperança. Michelle consolidou-se como uma das maiores forças políticas da direita no Brasil”, declarou.
A senadora também afirmou trabalhar para convencê-la a disputar uma eleição em 2026. “Caso seja a decisão dela, ela reúne todas as condições não apenas para disputar uma vaga ao Senado, mas para realizar uma campanha vitoriosa. Estou pessoalmente empenhada em tê-la como candidata”, disse.
No PL, o discurso segue na mesma direção. O presidente nacional da legenda, Valdemar Costa Neto, descartou a possibilidade de substituir Michelle no comando do PL Mulher e admitiu até mesmo extinguir a presidência nacional do segmento. “Queremos muito que ela volte à Presidência do PL e seja candidata a Senadora”, disse ao Correio.
Na quarta-feira, ele afirmou a jornalistas: “Sem querer desmerecer as mulheres do nosso partido, aliás, são muito melhores do que os homens, nós não temos ninguém à altura da Michelle. A Michelle tem um poder muito grande de comunicação, fala bem, tem imagem boa e é dedicada”.
A declaração evidencia o espaço conquistado pela ex-primeira-dama dentro do partido desde que assumiu o comando do PL Mulher, em 2023. Sob sua liderança, o núcleo feminino ampliou presença nos estados, fortaleceu candidaturas conservadoras e ajudou a aproximar o partido do eleitorado feminino, especialmente entre evangélicas.
No Congresso, a leitura é semelhante. Líder da oposição no Senado, Izalci Lucas (PL-DF) atribui o atual afastamento à pressão pessoal enfrentada por Michelle nos últimos meses, mas descarta qualquer perda de protagonismo político.
“A pressão sobre ela é muito grande. Tem um marido preso, condenado, e existe toda essa preocupação com o estado de saúde dele. Evidente que isso afeta”, frisou.
Apesar disso, o senador acredita que a ex-primeira-dama continua sendo uma das figuras mais competitivas do campo conservador.
“É a maior liderança que nós temos hoje no país em termos de mulher. Ela realmente é um fenômeno. Tem tudo para ganhar uma eleição, se for candidata, até ao Senado, sem nenhuma dificuldade”, destacou.
Para o cientista político Rudá Ricci, presidente do Instituto Cultiva, o fenômeno Michelle Bolsonaro vai além da conjuntura eleitoral e ajuda a explicar transformações em curso na política brasileira.
Segundo ele, a ex-primeira-dama ocupa um espaço que a esquerda não conseguiu preencher nos últimos anos ao projetar lideranças femininas com forte capacidade de mobilização popular.
“Há muito tempo a esquerda não consegue projetar uma liderança feminina com a dimensão que a direita está conseguindo construir. Isso ocorre com Damares Alves, com Celina Leão, mas principalmente com Michelle Bolsonaro”, avaliou.
Na análise do pesquisador, a força política de Michelle está diretamente ligada à sua conexão com o eleitorado evangélico e à narrativa de transformação pessoal que construiu ao longo dos anos.
“O discurso dela dialoga com a ideia de redenção muito presente nas igrejas evangélicas. É uma narrativa que encontra identificação em milhões de pessoas que também passaram por processos de transformação pessoal e religiosa”, ressaltou.
Ricci também avalia que parte das resistências enfrentadas pela ex-primeira-dama decorre justamente da autonomia política que ela desenvolveu.
“Ela constrói uma liderança que muitos homens da direita e da extrema-direita não controlam. Isso ajuda a explicar parte dos ataques que recebe”, observou.
Fonte Correio Braziliense
Foto: Evaristo Sa/AFP











