Brasilienses se declaram aos sebos e livrarias da cidade

Livreiros e leitores de Brasília contam a relação que têm com livros, sebos e livrarias, como surgiu o hábito de ler e as memórias que a leitura suscita

A livreira Paula Alencar recebeu a missão de continuar um legado de família: em 1994, o sogro, ex-servidor público, decidiu transformar o acervo de livros que mantinha em casa em sebinho. Na época, usaram o espaço de uma loja da qual eram proprietários na 409 Norte, e, há 32 anos, os leitores de Brasília podem recorrer ao Cope Espaço Cultural para encontrar desde clássicos da literatura mundial, como Clarice Lispector e Fiódor Dostoiévski, até livros técnicos de engenharia ou medicina. 

O amor de Paula pela literatura vem desde a infância, criada pelo que considera “uma família de leitores”. “Não tem como você trabalhar com livro e não gostar.” Desde a pandemia, porém, a comerciante tem visto uma mudança nos hábitos de leitura e consumo do público brasiliense: a clientela diminuiu, enquanto a compra pelos grandes sites de venda na internet aumentou. “O pessoal foi mais para o digital e para esses sites. O que acontece é que o físico ficou um pouco defasado”, diz. 

Para ela, o hábito da leitura – principalmente em livros físicos, comparado aos substitutos digitais – vem de casa. “Sempre tem aquela clientela que gosta muito do papel, as famílias que foram educadas comprando livros para os filhos”, conta. Depois de um período de baixa, a percepção de Paula é que o setor voltará a crescer. “Está melhorando. Tem que melhorar, né? Não tem como”, torce.

Consumo

A esperança de Paula é retratada nos números: a pesquisa Panorama do Consumo de Livros, iniciativa da Câmara Brasileira do Livro e realizada pela Nielsen BookData, indica que, em 2025, 18% da população com 18 anos ou mais adquiriu ao menos um livro nos últimos 12 meses, o que representa 2% de crescimento em relação ao ano anterior. Quase metade dos respondentes, 47%, afirmou que recorreu a uma livraria na compra do último livro impresso.  

Para Cida Caldas, proprietária do Sebinho, na 406 Norte, o diferencial das livrarias é o que o espaço pode oferecer ao consumidor. “A pessoa vem para garimpar, ativar a memória, encontrar pessoas. Junto com a livraria, temos o bistrô, então é um ponto de encontro”, diz. “Obviamente, existem pessoas que preferem ler no Kindle, mas acho que ainda existe uma parcela significativa que, embora esteja mergulhada no mundo virtual, prefere o livro físico.”

O contato do dia a dia permite que os vendedores criem relacionamentos com clientes e, quando necessário, até mesmo recomendem obras. “Hoje, atendi uma cliente que estava com uma amiga americana e queria indicar a ela algumas autoras da literatura brasileira contemporânea. Você está aqui para indicar, por isso, precisa gostar de livros”, explica. Para ela, os hábitos dos consumidores não mudaram. “Se ganhou o Prêmio Jabuti ou o Nobel, os leitores querem conhecer os autores. São vários fatores que despertam a curiosidade para a leitura”, afirma.

Hábito de vida

Nos anos 1970, o pai da confeiteira Beth Lima levava, frequentemente, a revista Visão aos filhos, para que desenvolvessem o hábito de leitura ainda crianças. A estratégia funcionou. “Com o tempo, passei a gostar de livros espíritas e foi por onde peguei o gosto pela leitura. Hoje, eu leio qualquer coisa. Meu pai nos colocou para ler desde criança, então adoro livro, revista, folhear um jornal”, conta ela, frequentadora do sebo Cope.

Esse primeiro contato na infância levou Beth a desenvolver uma relação íntima com o produto impresso. “Eu tenho que pegar, ver, ter contato.” Para ela, apesar das inovações tecnológicas, o livro não vai morrer. “Não vejo tantas livrarias como eu gostaria. Está faltando? Sim, então como é que podemos resolver essa situação? Vamos ver o que nós podemos fazer em relação a isso”, cobra.

A livraria, para ela, é um lugar de encantamento e permite ao leitor encontrar títulos que, pela internet, não se interessaria. “É ótimo chegar dentro de uma livraria e olhar. Só em ver o título do livro, já encanta. Pode não ser o que você procura, mas só em olhar na estante, aquele título te chama atenção e você vai lá pegar. Eu sou dessa de chegar na livraria e ficar olhando os livros e pegar o que me encantar”, explica. 

O motorista de aplicativo Samer Azzeddine vê, de perto, os benefícios e dificuldades de ser leitor e também autor. Graduado em Ciência Política, escreve livros sobre a área e de ficção religiosa. Para ele, os sites de venda de livros oferecem melhores oportunidades para autores, mas as livrarias e sebos proporcionam uma relação diferente com os livros. “Na Amazon, você tem oportunidades maiores. Só que você não tem a chance de, talvez, ter o livro físico com você, ou pode ser também que tenha que aguardar a entrega por dois, três ou quatro dias”, diz. “Aqui você pega o livro e começa a ler na hora.”

Formação

Professora da educação infantil, Letícia Mourão percebeu que levava jeito para narrar contos quando um colega de profissão comentou que as apresentações que fazia na escola pareciam uma sessão de contação de histórias. Decidiu, então, investir na área — ainda como hobby — narrando livros para crianças de uma comunidade carente em Taguatinga.

“Comecei a contar histórias como uma forma de levá-los para o livro, porque eles se interessavam na oralidade, que ajuda a criar imagens na mente”, diz. “Fui contando para eles e, depois que ficavam encantados, apresentava o livro.”

Hoje, Letícia promove encontros de contação de histórias em uma biblioteca pública de Taguatinga em dias de semana, à noite. “Há uma mudança maior, os pais vão na biblioteca. Estou vendo um movimento, não muito grande, poderia ser maior, mas é bom”, diz. Mesmo voltada ao público infantil, a contadora considera que, por vezes, os adultos são os mais atingidos pela histórias. “Ele entende metáforas, as mensagens que tem por trás e ficam maravilhados. Conversa com a criança interior”, afirma.

Para a contadora de histórias e jornalista Flávia Ribas, a interação de pais e filhos no momento da leitura é insubstituível. “Quando um adulto conta uma história para a criança, ele está com a atenção voltada inteiramente para ela. Gera vínculo adulto-criança no ambiente familiar”, ressalta.

Os livros permitem abordar com as crianças temas que conversas do dia a dia não abrangem. Durante as sessões de contação de histórias, Flávia levanta temas como o Cerrado, emoções, diversidade, a construção de Brasília e, mais recentemente, democracia e liberdade.

“Falar sobre política é supertabu, mas há maneiras de falar de situações que a criança vive e não sabe. Quando abordamos pela literatura, sempre fico surpresa com a reação delas”, conta. “Me fazem perguntas ou falam de situações que estão vivendo em casa que nem sempre se abrem para falar.”

*Estagiária sob supervisão de Tharsila Prates

Fonte Correio Braziliense
Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press