Metrô-DF deixou de receber R$ 3,3 milhões por falta de funcionários

Com último concurso em 2013, metrô vê falta de funcionários para vender passagens e deixa de receber R$ 3,3 milhões em um ano

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A cena é comum para quem utiliza com frequência o transporte público no Distrito Federal: a pessoa chega na estação do metrô, mas não tem um funcionário na bilheteria para vender a passagem. Com isso, um servidor fica ao lado da catraca liberando a entrada. Essa é a chamada “abertura de cancela”. Em 2022, 601.255 usuários do metrô passaram sem pagar por conta dessa abertura. Com isso, a Companhia do Metropolitano do Distrito Federal (Metrô-DF) deixou de arrecadar mais de R$ 3,3 milhões no ano passado.

Como a passagem de metrô custa hoje R$ 5,50, as 601.255 liberações de acesso significariam uma arrecadação de exatos R$ 3.306.902,50. No último concurso do metrô, de 2013, o cargo de operador metroviário júnior, que tinha como atribuição “realizar a venda de créditos de viagens e consolidar e fechar caixas de bilheterias; guardar, registrar, movimentar e prestar conta de valores e numerários das Estações”, tinha salário de R$ 3.240 mensal.

Como são 27 estações de metrô em funcionamento, um cálculo básico mostra que 27 funcionários com esse cargo fariam a companhia gastar R$ 1.049.760 com os salários anualmente, o que significa somente 31,7% do valor deixado de arrecadar em 2022 com a abertura de cancelas. Os números são estimados, já que não são corrigidos pela inflação e não houve outro concurso mais recente.

2023

Enquanto a Companhia do Metropolitano segue com déficit de funcionários, a abertura da catraca segue sendo comum. Ela acontece quando há somente um servidor na estação, sendo que o mínimo ideal seriam cerca de seis pessoas trabalhando em cada ponto.

Em 2023, a Comissão de Transporte e Mobilidade Urbana (CTMU) da Câmara Legislativa do DF, presidida pelo deputado Max Maciel (PSol), levantou que, somente em agosto, foram realizadas 57.020 aberturas de cancelas, deixando de lado uma arrecadação de R$ 313.610.

Os dados de agosto mostram que o valor “jogado fora” pelo metrô em 2023 pode ser ainda maior. Se cada mês repetisse o número de aberturas, o ano terminaria com R$ 3.763.320 não arrecadados. Max promoveu uma visita técnica no metrô nesta semana para avaliar os problemas atuais do sistema.

“O Metrô-DF conta com um déficit muito grande de funcionários. Desde 2014 não temos concurso público para suprir a atual demanda. São quase 10 anos sem um certame. O dinheiro que está deixando de ser arrecadado por conta das cancelas abertas nas estações e que poderia ser investido no próprio metrô é totalmente o reflexo dessa falta de profissionais no sistema. É preciso de mais funcionários e de mais investimento público nesse modal importantíssimo para o Distrito Federal”, avaliou, ao Metrópoles.

Sindicato

Em nota, o Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Transportes Metroviários do Distrito Federal (Sindmetrô-DF) lembra que o número alto de abertura de cancelas aconteceu mesmo em períodos em que não houve greve dos servidores.

“A falta de empregados é assustadora e pode pôr em risco os usuários do sistema. A contratação de empregados foi objeto de negociação do primeiro termo aditivo ao ACT [Acordo Coletivo de Trabalho] 2015/2017. No ano de 2016, a recomposição do quadro de empregados da Companhia previa a contratação de 621 empregados, sendo 320 vagas por empregos em aberto e 301 vagas geradas pela expansão do sistema. Porém, foram contratados menos de 300 empregados, ou seja, não recompôs as vagas em aberto e muito menos o quadro necessário para a ampliação do sistema”, traz a nota.

O sindicato também pontua que, em 2018, houve autorização para realização de novo concurso público, mas que acabou não sendo realizado. “A falta de empregados e a insegurança causada pela manutenção inadequada tem feito com que os empregados do Metrô-DF sofram com jornadas de trabalho exaustivas e desgastes à saúde física e/ou mental”, finaliza.

Mais problemas

Além da exaustão de um serviço prejudicado pela falta de funcionários, quem atua no metrô também cita que alguns problemas recorrentes são causados por serviços que já são privatizados. Atualmente, o serviço de manutenção e o de vigilância são prestados por empresas privadas.

Recentemente, em 27 de outubro, houve uma explosão em um equipamento do sistema e a Estação Central do metrô precisou ser fechada. As imagens assustaram a população que passava pelo local e ao menos duas pessoas ficaram feridas. Elas teriam se machucado durante o tumulto — uma, na perna; outra, no braço — e levadas para o hospital.

No lado da vigilância, o que vem causando transtornos que afetam a população é o furto de cabos de energia, que já chegou a paralisar a circulação de trens algumas vezes no ano. Em 19 de outubro, o furto afetou a circulação do metrô em Ceilândia no horário de pico. Segundo a Polícia Militar (PMDF), o crime foi cometido na estação Ceilândia Norte e parou momentaneamente os trens.

Metrô diz que RH é prioridade

A Companhia do Metropolitano, em nota, afirmou que a “gestão de recursos humanos é uma prioridade constante para garantir a eficiência e a segurança nas operações”, e pontuou que a abertura de cancela “é uma medida tomada pelo Metrô-DF visando garantir ao usuário que ele não tenha seu direito de locomoção prejudicado”.

“A empresa está, constantemente, avaliando as necessidades de pessoal para atender às demandas em constante evolução. Dessa forma, são implementadas estratégias para otimizar a utilização dos recursos disponíveis e proporcionar um ambiente seguro e eficiente para nossos usuários em todas as 27 estações operacionais.”

Por Alan Rios da Metrópoles

Foto: Reprodução Metrópoles