Automedicação agrava situação de pessoas com doenças

Com a explosão nos casos de dengue no DF, especialista alerta sobre os perigos de se tomar remédios sem orientação

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A automedicação é algo mais comum do que se imagina, e cresce no Brasil, além de ser um grande risco para os doentes com dengue. Segundo o Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ), em 2022, pelo país, aproximadamente 89% das pessoas com mais de 16 anos consultadas para esse levantamento admitiram tomar remédios sem prescrição médica. Oito anos antes, de acordo com a instituição, o índice estava em torno dos 76%. Os números servem como alerta, principalmente devido ao crescimento de casos suspeitos da doença transmitida pelo Aedes aegypti e que pode abrir caminho a graves complicações na saúde de quem estiver infectado pelo vírus da dengue.

De acordo com a última pesquisa divulgada pelo ICTQ, 64% do público entrevistado, e que não busca orientação profissional para tomar remédios, disse utilizar analgésicos; 47% antigripais; 35% relaxantes musculares; e 6% para o controle de sintomas da ansiedade, como o estresse e a insônia. O infectologista do Hospital de Base Julival Ribeiro explicou que a automedicação, em determinados casos, pode ser prejudicial e gerar ameaças consideráveis à vida. Em relação ao mal transmitido pelo inseto, ele acrescentou que o próprio Ministério da Saúde tem informado não haver um tratamento específico para a enfermidade.

“Os principais riscos da automedicação incluem uma lista extensa de efeitos que ocorrem em diferentes níveis de intensidade, podendo variar dependendo do tipo de substância administrada (medicamento), tempo de uso e outros fatores. Por exemplo: intoxicações, reações adversas e, sobretudo, agravamento do quadro clínico [do paciente] devido ao tratamento incorreto”, ressaltou.

Ribeiro acrescentou que a epidemia de dengue vivida no Distrito Federal é bastante preocupante. Ele disse ser essencial que a pessoa com os sintomas dessa doença procure uma unidade de saúde para verificar se está infectada ou, se na verdade, tem outro problema. “Algumas doenças têm sintomas semelhantes e é necessária uma avaliação, pela equipe de saúde, para haver um diagnóstico definitivo, com checagem do quadro clínico e realização de exames laboratoriais”, comentou o infectologista.

“A dengue é uma doença que não possui um tratamento específico, ou seja, os medicamentos são utilizados apenas para diminuir os sintomas. Entretanto, alguns, como os anti-inflamatórios (aspirina, ibuprofeno e naproxeno) são contraindicados para tratá-la porque podem aumentar o risco de sangramento, que é uma complicação grave. O uso de corticoides também é contraindicado para cuidar dos pacientes picados pelo Aedes devido ao fato de que esses medicamentos podem agravar o quadro clínico”, completou.

Decisão errada

A copeira e moradora de Luziânia (GO) Regina Dias, 37 anos, teve dengue. Disse que ao perceber os primeiros sintomas, chegou até a procurar um hospital da rede pública. Mas devido ao mal-estar intenso e à demora no atendimento, “tive que me automedicar para que a situação não piorasse”, como relatou, pensando estar tomando uma decisão adequada, mas, na verdade, indo para uma experiência nada boa.

Ela tomou, sem qualquer orientação médica, buscopan, dipirona e soro fisiológico. “No dia seguinte, ao ingerir os medicamentos, tive uma crise alérgica e fiquei com o rosto inchado e dormência”, lembrou.

Diferentemente dela, o segurança de uma empresa de construção Florisvaldo Cardoso, 49, evita a automedicação. Morador de Planaltina de Goiás (GO), ao sentir os primeiros sintomas da dengue, disse haver procurado ajuda especializada. “Fui até o hospital e fizeram um exame de sangue em mim que deu positivo para dengue. O profissional me orientou e passou as receitas das medicações necessárias para eu ficar bem”, explicou.

O segurança se soma aos que só fazem uso de medicamentos, após se consultarem em hospitais ou unidades médicas e estão cientes de que essas substâncias podem causar efeitos adversos. “O profissional de saúde estudou muitos anos e sabe como orientar e os medicamentos que deve passar. Já algum conhecido, amigo ou vizinho pode me indicar um remédio, mas eu não sei do que é composto, não sei se vai prejudicar minha saúde ou me dar alergia. Por isso, é melhor solicitar a ajuda de um médico”, reforçou.

Por Pablo Giovanni, Caio Ramos do Correio Braziliense

Foto: Caio Ramos/CB/D.A Press / Reprodução Correio Braziliense