O perigo dos testes falso-negativos para pacientes com dengue

Mesmo com o diagnóstico de dengue não confirmado, especialistas alertam que é importante o monitoramento dos sintomas e o eventual retorno do paciente às unidades de atendimento para evitar o agravamento da doença

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Além de todas as complicações que a dengue pode trazer para quem acaba infectado pela doença, é preciso ter cuidado na hora de realizar o teste rápido, para os resultados falso-negativos. Jonatas Pereira, 9 anos, foi levado duas vezes pela avó Maria Rosileusa Moura, 70, ao Hospital de Campanha em Ceilândia (HCamp), em busca de diagnóstico para os sintomas que o menino apresentava: febre, dor no corpo e atrás dos olhos e enjoo.

Na última segunda-feira, ela esteve no mesmo local com a criança que, naquele momento, estava doente há dois dias. “Fizeram o teste e deu negativo. Além de todos os sintomas clássicos da dengue, de ontem para hoje (de quarta-feira, 20/3, para quinta-feira, 21/3) ele não conseguia mais nem ir ao banheiro sozinho. Está andando como se as pernas estivessem quebradas”, descreveu. “Hoje (quinta), fizeram o teste de novo, que continuou sem positivar”, comentou a aposentada.

Médica intensivista do Hospital Santa Marta, Adele Vasconcelos lembrou que o teste rápido de dengue é aconselhável nos três primeiros dias de doença. “Só que ele também pode dar negativo, principalmente se não estiver no período inicial”, acrescentou a especialista, o que pode de ocorrido no caso do pequeno Jonatas.

Para Adele, o risco de um teste falso-negativo é que o paciente acaba não se preocupando, por achar que não tem dengue, e negligencia os sinais de alarme. Por isso, a médica ressaltou que, mesmo dando negativo, a presença dos sintomas clássicos como febre, dor atrás dos olhos, náusea, dor abdominal, vômitos e até diarreia traz a necessidade de continuar tratando o caso como provável. “O paciente tem que procurar o médico, para realizar uma avaliação mais adequada e fazer o teste mais específico, que é o PCR”, observou a médica.

A atendente Elba da Silva, 34, levou a filha, Zaya de Oliveira, 2, até o HCamp para conseguir um diagnóstico. “Ela teve 40ºC de febre e empolou o corpo. Os sintomas começaram no domingo. A gente foi no Hospital de Ceilândia (HRC) e depois na UPA. Ficamos uma semana correndo atrás de atendimento. Somente no Hospital de Campanha que ela foi medicada e fez o teste, por causa das manchas, mas deu negativo”, comentou. “Mesmo assim, pediram para monitorar a minha filha e, caso houvesse alguma piora, voltar ao hospital”, comentou.

A infectologista Joana D’arc Gonçalves acrescentou que, além dos riscos para o paciente, a consequência maior, no lado governamental, é a falsa sensação de tranquilidade, quando, na verdade, os dados da doença podem ser piores. “Isso pode causar dificuldade na hora de criar políticas públicas e melhorar a rede de atendimento para os locais com maior incidência da dengue”, afirmou.

Retorno

Além do falso-negativo, outro aspecto recorrente nessa epidemia é o retorno dos pacientes às tendas. Infectologista do Hospital Brasília de Águas Claras, André Bon explica que “com a elevação de infectados, os quadros mais graves se tornam mais frequentes e, com isso, tem-se a necessidade de retornar ao hospital para buscar atendimento”, ressaltou. “Isso fez com que houvesse mudanças no protocolo de atendimento (do Ministério da Saúde), como a redução do volume de hidratação em casa e a necessidade de reavaliação mais frequente nos pacientes graves”, pontuou o infectologista. De acordo com o último boletim epidemiológico pela Secretaria de Saúde (SES-DF), divulgado na quarta-feira, o DF tem 158,5 mil casos prováveis de dengue até 18 de março, número 1.633% maior do que no mesmo período do ano passado.

Por Arthur de Souza do Correio Braziliense 

Foto: Editoria de Arte / Reprodução Correio Braziliense