A combinação de baixa umidade do ar, vegetação seca e ausência de chuvas cria condições favoráveis para a ocorrência de incêndios. Entre maio e novembro, o Corpo de Bombeiro Militar (CBMDF) concentra as principais ações operacionais da Operação Verde Vivo para fiscalizar e punir de acordo com a lei, as pessoas que provocam o crime ambiental. Os brigadistas florestais do Instituto Instituto Brasília Ambiental (Ibram), dispõem de tecnologia para monitorar à distância a origem de fogos e atuam na linha de frente do combate.
Provocar incêndios em vegetação configura crime ambiental. De acordo com a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), o artigo 41 da Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998) prevê pena de reclusão de dois a quatro anos, além de multa, para quem provocar incêndio de forma intencional.
Quando o incêndio ocorre por imprudência, negligência ou imperícia, a legislação estabelece detenção de seis meses a um ano, também acompanhada de multa. A população pode denunciar crimes ambientais por meio da Ouvidoria do Governo do Distrito Federal (telefone 162), do Ibram ou da Polícia Militar Ambiental.
Entre janeiro e 23 de agosto de 2026, os bombeiros militares contabilizaram 4.217 ocorrências de incêndios em vegetação. O número corresponde a mais da metade dos 6.488 registros feitos durante todo o ano de 2025.
Os dados mostram, ainda, que o cenário se intensificou com a chegada do período de estiagem. De janeiro a abril, foram registradas 468 ocorrências. Já durante a Operação Verde Vivo, iniciativa anual do CBMDF para prevenção e combate aos incêndios florestais, os números cresceram: foram 589 casos em maio, 554 em junho, 1.096 em julho e 1.510 somente até 23 de agosto.
Monitoramento
As causas do fogo são variadas, como acidentais, intencionais e naturais. Apesar da dificuldade em apontar a origem de todos os focos, o porta-voz da Operação Verde Vivo, Jean Charles ressalta que uma parcela das ocorrências poderia ser evitada. “Especialmente aqueles relacionados ao uso inadequado do fogo, como queimadas para limpeza de terrenos, queima de lixo e restos de poda, fogueiras e o descarte de restos de cigarro em áreas de vegetação”, destaca o sargento.
Para tentar reduzir o tempo entre o surgimento de um incêndio e a chegada das equipes, a Operação Verde Vivo utiliza câmeras, imagens de satélite, aeronaves tripuladas e drones para acompanhar áreas consideradas de maior risco.
“Essas ferramentas permitem identificar focos com maior rapidez, acompanhar a evolução dos incêndios e direcionar as equipes para uma resposta mais eficiente”, explica.
O trabalho, no entanto, não depende apenas dos equipamentos. A atuação preventiva também passa pela população, principalmente durante os meses mais secos, quando uma pequena fonte de ignição pode se transformar rapidamente em um incêndio de grandes proporções.
“A participação da população é fundamental: não provoque queimadas, evite qualquer fonte de fogo próxima à vegetação e, ao presenciar alguém realizando uma queimada irregular, denuncie às autoridades”, orienta o porta-voz.
Quem também acompanha de perto a dimensão dos incêndios são os brigadistas florestais do Ibram. Klayton Santos atua diretamente no combate ao fogo, e afirma que, durante o período de estiagem, a ação humana representa a principal fonte de ignição observada pelas equipes.
“Cerca de 95% dos incêndios são provocados pela ação humana, enquanto os outros 5% estão relacionados a causas acidentais, como um curto-circuito em um fio ou um veículo que pega fogo às margens de uma unidade de conservação”, diz Klayton.
Apesar de o Cerrado possuir um regime natural do fogo, as queimas naturais acontecem de forma esporádica e em condições muito específicas, durante a estação chuvosa. “Mas durante o período de estiagem o cenário é completamente diferente. A vegetação está mais seca, a umidade do ar é baixa e as condições meteorológicas favorecem a rápida propagação das chamas. Nesse contexto, a ação humana se torna a principal fonte de ignição”, explica.
O problema pode começar em situações aparentemente simples. Uma limpeza de terreno, uma queima de folhas, uma fogueira em uma trilha ou uma bituca de cigarro descartada de maneira inadequada podem iniciar um incêndio.
Para acelerar a resposta, equipes do Ibram utilizam estruturas fixas de observação. Em Planaltina, por exemplo, há uma torre que permite aos brigadistas o campo de visão sobre a região. “Caso seja avistado um ponto de calor, nos deslocamos rapidamente para o combate, tendo em vista que, quanto maior a rapidez, mais chances temos para debelar o incêndio de forma rápida”, relata.
Impacto
A capacidade de regeneração do Cerrado, muitas vezes, contribui para a percepção de que o fogo seria parte comum da paisagem. Para a gestora ambiental e especialista em Reabilitação Urbana Sustentável Paloma Ludmyla, porém, essa visão pode esconder os efeitos provocados pelos incêndios sobre o equilíbrio ecológico.
“Os incêndios no Cerrado, apesar de serem considerados por alguns algo comum, e isso decorre justamente pela característica de resiliência que este bioma possui, não podemos desconsiderar o impacto que isso exerce no equilíbrio ecológico”, afirma.
Entre os impactos apontados pela especialista está a possibilidade de danos aos recursos hídricos, especialmente às nascentes. Dependendo da gravidade e da frequência das queimadas, a recuperação dessas áreas pode ser difícil.
“No aspecto da hidrologia, esta prática afeta principalmente as nascentes, dependendo da gravidade e recorrência, podendo ser de difícil recuperação”, explica Paloma.
O fogo não atinge apenas a vegetação. Animais que vivem nas áreas atingidas também são diretamente afetados, seja pela morte imediata, seja pela destruição de habitats e pela alteração da disponibilidade de alimento e abrigo.
“Quanto à fauna, já possuímos muitas espécies sob ameaça de extinção. Precisamos compreender que não é possível dimensionar o impacto na cadeia ecológica do extermínio de uma espécie”, afirma.
“A prevenção do fogo é uma atividade essencial para o equilíbrio ecológico”, conclui.
*Colaborou Luiz Francisco
Fonte Correio Braziliense
Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press











