Coro da renovação: canto das cigarras toma as quadras do Plano Piloto

Sons emitidos pelas cigarras despertam nos moradores sentimentos que transitam das memórias afetivas ao incômodo e, para os pragmáticos, ao sinal da chegada das chuvas

Em meio à primavera, em outubro, as cigarras começam a emanar seu canto nos jardins e matas do Distrito Federal. Diversos endereços do Plano Piloto estão recheados de cigarras cantando, mas na 316 Sul elas se destacam. Uma quadra com muitas árvores e plantas, que convidam a biodiversidade a se acomodar. 

Para o estudante e morador da quadra Miguel Guimarães, 21, o barulho dos insetos traz proximidade com o meio ambiente. “Quebra um pouco a ideia da selva de concreto. Estamos aqui no meio dos prédios e carros, mas dá pra perceber a natureza nesses sons”, observa. Para ele, a sensação é agradável. Os barulhos, às vezes, incomodam.

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As cigarras existem por todo o planeta, inclusive nativas do Cerrado, bioma que cobre o Distrito Federal. O biólogo Vitor Sena explica que o Brasil possui uma grande diversidade de espécies do inseto.

No Cerrado, o surgimento das cigarras acontece nos meses de setembro e outubro, que marcam as primeiras chuvas pós-seca e o início da primavera. O canto da espécie pela cidade, para os moradores, sinaliza a possibilidade do fim do período de estiagem que castiga o DF. 

A babá e moradora de São Sebastião Rebeca Marques, 28, trabalha na 316 Sul. Para ela, os cantos das cigarras podem incomodar, mas também se tornam sons do cotidiano. “A gente vai se acostumando. Incomoda porque, às vezes, atrapalha a soneca da neném que eu cuido, e de vez em quando, é bom o silêncio puro”, comenta.

Apesar do desconforto, Rebeca entende que os barulhos dos insetos também significam a chegada das chuvas. “Tá muito seco. Se até os bichinhos estão pedindo chuva, imagina nós, humanos. Aí, isso é bom”, conclui. 

“Na maior parte do seu ciclo da vida, as cigarras permanecem no solo na fase de ninfa, alimentando-se da seiva das raízes. Porém, quando completam seu desenvolvimento, elas emergem para se transformar em adultas e se reproduzir”, explica Sena. O ciclo de vida da espécie é influenciado por fatores ambientais, como temperatura e umidade, e coincide com os meses de início da temporada chuvosa. “Por isso, no imaginário popular, a presença das cigarras significa a chegada da chuva após a época de seca”, acrescenta. 

Apesar do incômodo que algumas pessoas podem sentir com o canto incessante das cigarras, o biólogo explica que o barulho é uma forma de comunicação reprodutiva entre a espécie, produzido principalmente pelo macho para que as fêmeas localizem os parceiros.

“Esse som é produzido por meio de estruturas chamadas tímbalos, capazes de vibrar rapidamente e gerar sons intensos, que podem aumentar quando muitos indivíduos cantam simultaneamente”, conta Sena. 

Vinicius Mendes, 29, é vendedor de biscoitos, castanhas e queijos, e tem ponto de vendas na 116 Sul, onde fica todas as terças-feiras. Ele conta que o som das cigarras traz lembranças de onde nasceu, na Paraíba. “Gosto de ouvir, e até sinto falta do Nordeste. Acho elas muito bonitas. É um momento muito bom, com a chegada das chuvas”, destaca Vinicius.

As cigarras também são bem recebidas por Consuelo dos Santos, 53. “Eu amo esse barulho. Você se imagina no meio da natureza, na roça. É maravilhoso!”, conta. Moradora do Jardim Ingá, mas nascida e crescida em uma área rural no Distrito Federal, assim como Vinicius, o canto das cigarras carrega memória afetiva e é apreciado com carinho. Consuelo trabalha com serviços gerais em prédios residenciais da Asa Sul, e aprecia, há anos, o momento em que os bichinhos saem para cantarolar pelas quadras.  

O especialista exalta que as cigarras são importantes no equilíbrio ecossistêmico e a manutenção da biodiversidade do Cerrado, pois são agentes presentes nas interações entre solo, flora e fauna.

“Elas participam de cadeias alimentares, da ciclagem de nutrientes e da dinâmica do solo. Durante sua fase subterrânea, as ninfas alimentam-se da seiva das raízes e escavam galerias que podem contribuir para a porosidade do solo, contribuindo, inclusive, para a infiltração da água da chuva”, afirma o biólogo.

O ciclo natural continua na fase adulta, quando as cigarras podem servir de alimento para aves, aranhas e outros predadores e, ao fim de suas vidas, fornecem matéria orgânica e nutrientes ao ambiente. 

Enquanto as primeiras chuvas não se firmam, o coro das cigarras segue ecoando entre os blocos das quadras do Plano Piloto. O canto, que divide opiniões, representa apenas, ou grandiosamente, mais um fenômeno da natureza, e se faz muito presente na capital do país.

*Estagiária sob a supervisão de Márcia Machado

Fonte Correio Braziliense
Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press