No Dia Nacional do Livro, conheça os apaixonados pela leitura

Brasilienses se destacam com histórias sobre a importância da leitura nos dias de hoje. Professora da UnB, Cristina Madeira Coelho ressalta que o hábito de ler é um processo de humanização das pessoas

Formada em comunicação organizacional, Júlia Chaves, 26 anos, cresceu ouvindo do seu avô Hermes que “quem não lê, mal fala, mal ouve e mal vê”. Foi o incentivo dele que levou a comunicóloga a se apaixonar por histórias. “Cresci e acabei indo morar longe dele, mas a paixão pela leitura permaneceu. Ainda novinha, meu ‘point’ era a Biblioteca Cora Coralina do Valparaíso de Goiás, alugando livros e me entendendo como criança”.

O livro mais recente que leu foi Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: nós e os livros, de Cidinha da Silva. Para Júlia, ler representa uma busca por si mesma, por ensinamentos de quem veio antes e ela nunca conheceu, alimentando a curiosidade que vem da infância e prevalece em sua vida adulta. “Se hoje me reconheço no mundo, foi porque eu me envolvi com a potência dos livros”, exalta a moradora da Asa Norte.

Uma das idealizadoras do clube do livro Ujima, o projeto foca em autores racializados e um encontro por mês para a discussão do livro escolhido. Para integrar, basta mandar uma mensagem diretamente no Instagram @pedagoginga, expondo interesse em entrar. Play Video

Hoje, comemora-se o Dia Nacional do Livro. A data surge em homenagem à fundação da Biblioteca Nacional do Brasil, no Rio de Janeiro, em 1810. Nessa época, o Brasil recebeu seu primeiro acervo, com a transferência da Real Biblioteca Portuguesa para o Brasil.

Os livros são porta de entrada para o aprimoramento do vocabulário e para a dinamização do raciocínio, da interpretação e na organização de linhas de pensamento. O Brasil, que possui grandes escritores em sua história, consumidos por leitores vorazes e curiosos. 

A pesquisa de 2025 Panorama do Consumo de Livros, da Câmara Brasileira do Livro, destaca que o Brasil teve um crescimento de 3 milhões de leitores de livros em comparação a 2024. Além disso, mulheres pretas e pardas são o maior grupo consumidor de livros do país, representando 30% do total. 

Fomento à leitura

Aos 18 anos, o estudante de ensino médio e morador do Recanto das Emas Railan Souza vai à Biblioteca Nacional de Brasília (BNB) buscar livros quase todas as semanas. Para ele, o que move é a curiosidade de encontrar uma nova história para saborear. “Eu gosto de esbarrar com os livros, às vezes encontro o que procuro, às vezes encontro algo inesperado”, conta. O último livro que leu foi A Amiga Genial, da escritora Elena Ferrante. 

Apaixonado por literatura brasileira, o estudante entende a leitura como possibilidade de transformação. “Ler nos ajuda a ver o mundo de outras formas, é um ato democrático e importante pra gente se desenvolver enquanto pessoa, se colocar no lugar do outro e construir pensamento crítico”, exalta. Railan é leitor assíduo desde criança, e deve isso ao incentivo de sua família.

A Biblioteca Nacional é um equipamento cultural público da cidade e tem um acervo de mais de 65 mil livros, disponíveis para a população. O Distrito Federal possui 23 bibliotecas públicas com o objetivo de democratizar o acesso à informação e à cultura, espalhadas por 18 cidades da capital. 

De acordo com a BNB, são emprestados, em média, 2.496 livros por mês, e o perfil de quem os retira é, majoritariamente, de mulheres (54%), entre 19 a 59 anos (89%). O espaço conta com sete clubes do livro: Clube de Leitura BNB, Clube de Leitura Infantil, Clube de Leitura Juvenil, Clube de Leitura da Diversidade,  Clube de Leitura Dandara dos Palmares, Clube de Leitura das Leitoras e Clube de Leitura Entrelaçando Letras. 

Além disso, para o fomento e valorização da leitura, realiza feiras de troca de livros, oferece seu espaço para o lançamento de publicações e possui o Programa Mala do Livro, que cadastra agentes de leitura, cedendo espaço em suas casas ou em instituições parceiras para a circulação títulos de literatura infantil, juvenil, clássicos nacionais, internacionais e livros de pesquisa. 

“Outros mundos”

Otto Souto Hollenbach, 11, cresceu com a leitura muito presente em sua vida. Desde antes de aprender a ler, seus pais contavam histórias para ele e, assim que aprendeu a ler sozinho, se tornou um devorador de livros. Isso fez com que Otto se apaixonasse por literatura, e, em especial, fantasias. Registrado na Gibiteca do Espaço Cultural Renato Russo, o pequeno morador da Asa Norte vem ao local em busca de novas histórias frequentemente.

Para Otto, ler é ter a possibilidade de conhecer outros mundos. “Eu entro em histórias nas quais fico tão concentrado que me sinto um espectador, como se eu estivesse lá vendo tudo de longe”, declara. Atualmente, está lendo o terceiro livro da série Percy Jackson escrito por Rick Riordan. O menino, em uma ode à leitura, faz o convite para que as pessoas leiam cada vez mais. “Que todos que virem essa reportagem comecem a ler bastante!”, frisa. 

Professora da Universidade de Brasília (UnB), especialista em educação infantil e desenvolvimento, Cristina Madeira Coelho afirma que a criança que lê na infância se envolve com aspectos individuais e socioculturais históricos. “O desenvolvimento disso traz alterações no funcionamento psicológico na infância, é um processo de humanização da criança”, explica.

A especialista pontua que, atualmente, pesquisadores têm buscado entender o uso de redes sociais e aparelhos celulares “que acabam sequestrando as infâncias para dentro dessa caixinha”, diz. Cristina ressalta que os adultos devem se envolver com seus filhos e prestar atenção no seu próprio uso dos celulares, como uma parceria afetiva entre a criança e os pais, e assim, construindo um espaço propício para a leitura.

Além da leitura, a escrita faz parte desse processo expressivo, artístico e sociocultural comentado pela professora. Para Cristina Massot, “o exercício da escrita é onde podemos nos expressar, compartilhar, encontrar novas formas de narrar e poetizar a vida”.

De acordo com o Panorama do Consumo de Livros, entre as pessoas que não consomem livros, 35% não o fazem por considerarem livros caros, enquanto 28%, equivalente a 35 milhões de pessoas, relatam não possuírem livrarias próximas de onde vivem. Bibliotecas públicas se tornam uma alternativa e abrem a possibilidade de democratizar o acesso à leitura em espaços coletivos e comunitários. 

*Estagiária sob a supervisão de José Carlos Vieir

Fonte Correio Braziliense
Foto: Pedro Paulo Cardoso CB/DA Prees