Brasília: diplomacia, história e estética

Exposição Internacional Universal de Bruxelas de 1958 foi um grande momento para a imagem mundial das realizações do governo JK, do projeto arquitetônico e urbanístico de Brasília

A Exposição Internacional Universal de Bruxelas de 1958 — a primeira depois da Segunda Guerra Mundial — teve importantes inspirações, significados e simbolismos para o Ocidente em reconstrução. Foi também um grande momento para a imagem mundial das realizações do governo JK, do projeto arquitetônico e urbanístico de Brasília e da visão modernista da cultura brasileira.

Quando os arquitetos André e Jean Polak e o engenheiro André Waterkeyn assentaram, no meio do Heysel Park, em Bruxelas, o então surpreendente Atomium — com suas nove esferas de aço inoxidável (no projeto da época eram de alumínio), integradas por tubos, com 102 metros de altura —, a mensagem era clara: as possibilidades futuras para o uso da energia nuclear de forma pacífica. Numa linguagem indireta, referia-se também ao multilateralismo, ainda em construção depois dos tratados de Bretton Woods (1944), de Potsdam (1945) e da criação da ONU, em outubro de 1945. Claro, emanava a paz para a Guerra Fria, já em ascensão. Construído para durar apenas seis meses, ressignificado, o Atomium virou um símbolo belga, uma atração turística. Ele está para Bruxelas assim como a Torre Eiffel está para Paris.

As 34 nações que se fizeram presentes na exposição ergueram 127 pavilhões e 150 edifícios, encantando os olhos, os ouvidos, os aromas e os sabores de mais de 18 milhões de visitantes, entre abril e outubro de 1958. Dentre outras expectativas, o governo belga queria abrigar a capital europeia. Não por acaso, o Centro Administrativo da União Europeia e a sede da Otan ficam em Bruxelas.

Hugo Gouthier — casado com Lais Sayão, filha mais velha de Bernardo Sayão — já havia servido em Washington, Londres e Nova York quando foi nomeado, em 1956, embaixador do Brasil na Bélgica. No início da década de 1960, seria transferido para Roma, onde comprou, em nome do governo brasileiro, o Palazzo Pamphili, na Piazza Navona, sede exuberante da Embaixada do Brasil na Itália. Gouthier não era um diplomata comum. Culto e refinado, convivia com a elite política e empresarial dos Estados Unidos e com a nobreza e a inteligência de toda a Europa. Com a mesma desenvoltura, dialogava com os endinheirados e os intelectuais brasileiros. Sua proximidade com o presidente Kennedy, que conhecera na década de 1930, era tão evidente que o presidente João Goulart, em 1962, confiou-lhe a missão de explicar ao presidente americano a real posição do governo brasileiro em relação a Washington.

Estávamos em 1958. O Brasil vivia seu melhor momento no governo JK, com a expansão da indústria e a construção de Brasília consolidada. Havia no país a expectativa de que um novo tempo estava brotando. Uma nova civilização nos trópicos se anunciava, como gostavam de dizer o festejado sociólogo Gilberto Freyre, o discurso oficial do Itamaraty, o Iseb e uma constelação de artistas e a inteligência brasileros. Como poderia ter definido Caetano Veloso: tudo era divino, tudo era maravilhoso!

A história e a diplomacia já haviam destacado o poder dos símbolos, da arte, da beleza, do encantamento e da sedução no jogo das nações. A estética, não raro, convencia mais do que os canhões! Vendo a equidistância do governo em relação ao evento, Gouthier fustigou o amigo e embaixador Meira Penna, então chefe da Divisão Cultural do Itamaraty, e, de certa forma, convocou o diplomata Wladimir Murtinho, assessor direto de Meira Penna na Divisão Cultural do MRE, para coordenar a organização do Pavilhão do Brasil na exposição, em Bruxelas. Ato contínuo, convidou o arquiteto Sérgio Bernardes, então com 38 anos, e o engenheiro estrutural Joaquim Cardoso para construírem o pavilhão brasileiro. Num segundo momento, o paisagista Burle Marx integrou a equipe.

Os 2.500m² oferecidos ao Brasil no Heysel Park — uma área de 200 hectares, a sete quilômetros do centro de Bruxelas — não correspondiam exatamente ao terreno mais adequado. Com declive acentuado e posição periférica no setor internacional da exposição, acreditava-se que o que ali se erguesse teria menor visitação. Bernardes concebeu uma “tenda vermelha”, coberta por uma fina manta de concreto, sustentada por quatro arcos de aço. No centro, Burle Marx fez nascer um belo jardim que embeveceu a exposição. No meio da manta de concreto, um plúvium abrigava um balão preso a uma corrente que, ao subir aos céus com seus sete metros de diâmetro, permitia que a chuva adormecesse na suave “floresta tropical” de Burle Marx. Aproveitando o declive, Sérgio Bernardes criou uma rampa circular que levava o visitante ao bar, ao jardim e à sala de cinema.

Com o tema O Brasil constrói uma civilização nos trópicos, Wladimir Murtinho inventariou os símbolos, a arte, as conquistas e a história da pátria ao longo do percurso. Na entrada, um tronco de madeira da Amazônia, com 25 toneladas, e uma réplica da estátua do profeta Habacuque. No adro do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas (MG), esculpidos em pedra-sabão (1800-1805), estão os 12 profetas do Aleijadinho. Habacuque e Naum são os últimos. Em seguida, minerais, frutas exóticas, papagaios, arte popular e barroca; na parte econômica, refinarias, automóveis e a indústria do aço. No final da exposição, de autoria de Marcel Gautherot, fotos gigantescas das maquetes de Brasília, com destaque para a que representava a surpreendente Praça dos Três Poderes (5m x 8m). O sucesso foi absoluto: elogios, reconhecimentos e premiações. O pavilhão de Sérgio Bernardes e Burle Marx encantou, comoveu e surpreendeu o mundo, conquistando ainda 11 prêmios, dentre eles: Sérgio Bernardes — Grand Prix International d’Architecture; Roberto Burle Marx — Grand Prix International d’Horticulture; Novacap — Grand Prix International d’Urbanisme; Wladimir Murtinho — Estrela de Ouro.

*Jorge Henrique Cartaxo é jornalista, mestre em história pela Universidade Paris-Sorbonne

Foto:  Acervo Sergio Bernardes /NPD FAU UFRJ