Garrafas plásticas, embalagens de salgadinhos, sacolas, tampas de garrafas e utensílios descartáveis fazem parte da paisagem de alguns pontos nas margens do Lago Paranoá. O Correio foi às áreas dos setores de Clubes Sul e Norte e constatou a presença de resíduos espalhados pela orla e sinais de degradação ambiental.
No Deck Sul, por exemplo, além do lixo acumulado em alguns trechos, chamou atenção a grande quantidade de plantas aquáticas cobrindo parte do espelho d’água. O fenômeno pode indicar alterações na qualidade da água e está associado ao processo de eutrofização (crescimento excessivo de algas e plantas aquáticas), provocado pelo excesso de nutrientes, como fósforo e nitrogênio, geralmente oriundos de matéria orgânica e esgoto. O responsável pela retirada dessas plantas é a Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb).
Em nota ao Correio, o Serviço de Limpeza Urbana (SLU) informou que realiza diariamente a limpeza das áreas próximas ao Lago Paranoá, incluindo o Deck Norte e o Deck Sul. Segundo a autarquia, duas equipes de garis atuam nos locais em dois turnos, além de profissionais responsáveis pela varrição e coleta de resíduos nas orlas Norte e Sul. O órgão ressaltou, porém, que a retirada de lixo de dentro do espelho d’água não é de sua competência.
“O SLU pede a colaboração da população que utiliza esses espaços de lazer para que jogue o lixo nas lixeiras disponibilizadas”, destacou.
Para o analista ambiental do Instituto Brasília Ambiental (Ibram-DF), Thiago Silvestre Nomiyama, a poluição do lago é resultado de um problema que começa muito antes de os resíduos chegarem às margens. “Apesar de ser um reservatório artificial, o Lago Paranoá é abastecido por inúmeros afluentes que permeiam as regiões administrativas do DF. Todo tipo de lixo e sujidades que são jogados propositalmente ou acabam sendo carregados para as bocas de lobo, ao fim do ciclo, deságuam no Lago Paranoá”, explicou.
Segundo Nomiyama, um dos principais impactos ambientais observados é justamente a eutrofização. “Com o aumento da disponibilidade de nutrientes, há o surgimento de macrófitas, que acabam bloqueando a luz solar. A decomposição desses organismos reduz o oxigênio disponível, causando asfixia, morte de peixes e alterando toda a cadeia alimentar aquática”, afirmou.
“A presença constante de esgoto e lixo em determinado local favorece a proliferação de vetores como mosquitos e ratazanas. Esse ambiente tende a se tornar altamente propício para a transmissão de zoonoses”, completou.
A gestora ambiental e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), Paloma Ludmyla, avalia que o descarte irregular de resíduos está diretamente ligado à falta de conscientização da população. “Infelizmente, é cultural. A boa notícia é que isso se resolve com uma política robusta de educação ambiental”, destacou.
Para a especialista, a mudança de comportamento depende de investimentos contínuos em formação e conscientização. “Nenhuma transformação acontece sem um programa de educação na base. Muitas vezes investem em estrutura, infraestrutura e maquinário, mas não há transformação nos hábitos da população”, observou. Ela cita como exemplo o sistema papa-entulho do DF, que ainda é pouco conhecido pelos moradores. “Poucos conhecem ou sabem como funciona, e ele está lá para receber todo tipo de entulho da população até um metro cúbico diário, o que é bastante volume para uma pessoa comum”.
Conscientização
Enquanto observavam o movimento no Deck Sul, os amigos Marcus Soares Santos, entregador, morador da Vila Telebrasília, e Altair Alves, estudante de São Sebastião, ambos com 39 anos, acabaram desviando a atenção da paisagem para o lixo espalhado às margens do Lago Paranoá. A vista era verde, pela grande quantidade de plantas aquáticas, mas também foi possível observar pontos brancos espalhados pelo lago — resíduos descartados irregularmente.
“Parece que é algo cultural do povo brasileiro. Na última Copa do Mundo, por exemplo, vimos os japoneses recolhendo todo o lixo que produziam nos estádios. É uma questão de consciência”, afirmou Marcus.
Altair acredita que a falta de estrutura também contribui para o problema. “Deveria haver mais lixeiras próximas para evitar a poluição do lago. Dependendo da época do ano, o acúmulo de sujeira aumenta bastante, talvez por conta do vento”, observou Altair.
A poucos quilômetros dali, na Praça dos Orixás, ao lado da Ponte Honestino Guimarães, o motorista de aplicativo José França de Oliveira, 48, morador da Fercal, aguardava a chegada de um guincho quando se deparou com o cenário de abandono. O espaço, conhecido por sua importância cultural e religiosa, chamou a atenção pela quantidade de resíduos espalhados.
“É muita sujeira. Parece um lugar abandonado. Ao lado existe uma invasão e há muitos descartáveis jogados no chão. Me assusta ficar aqui”, lamentou.
A preocupação com a poluição também foi compartilhada por visitantes de outras regiões do país. As amigas Taciara Raquel dos Santos, 41, do Quilombo Santa Tereza do Matupiri, em Barreirinha (AM), e Stephany Cristini da Silva, 24, do Quilombo Santana do Arari, em Ponta de Pedras (PA), estão em Brasília para participar do 3º Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas, que debate temas ligados à preservação ambiental e aos impactos das mudanças climáticas.
Para Stephany, a situação evidencia um problema que ultrapassa fronteiras. “No Pará, muitas pessoas ainda descartam resíduos nos rios a partir das embarcações, o que compromete todo o sistema fluvial. Acabamos de participar de debates sobre clima e meio ambiente e percebemos que essa realidade não é exclusiva do Pará ou do Amazonas. É um problema que circula por todo o Brasil. Os brasileiros precisam refletir sobre os impactos dessas atitudes, porque todos nós vamos sentir as consequências. O que mais me preocupa é a qualidade da água”.
Fonte Correio Braziliense
Foto: Vitória Torres/CB











