Mulheres conquistam espaço no universo científico

De cada 10 pesquisadores do mundo, apenas três são mulheres. Apesar de ainda serem minoria no universo científico, elas estão desbravando cada vez mais esse espaço. Conheça as histórias de três cientistas que ocupam lugares de relevância em suas áreas

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“Devemos acreditar que temos vocação para alguma coisa e que essa coisa deve, a qualquer custo, ser alcançada.” A frase da primeira mulher ganhadora do prêmio Nobel de Física e Química, Marie Curie, ecoa até hoje e inspira mulheres que percorrem os caminhos da ciência. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), as mulheres representam apenas 33% de todos os pesquisadores do mundo, e apenas 12% delas são membros de academias científicas nacionais. O Correio conversou com três mulheres cientistas que ocupam lugares de relevância na Academia e em suas respectivas pesquisas.

Dona da patente de um composto chamado neurovespina, que serve para diminuir a morte de neurônios e ajuda a tratar doenças neurológicas, Lílian dos Anjos, 36 anos, tem orgulho de ser cientista, professora, pós-doutora e mulher. Biomédica, docente do curso de medicina em duas universidades no DF, mestra e doutora em neurociência, com pós-doutorado em neurologia, ela dedicou boa parte de sua carreira a estudar formas de tratar doenças neurológicas. “Comecei estudando o veneno do marimbondo e o composto que levava à paralisação da presa quando era picada. Fizemos vários testes e descobrimos um peptídeo, modificamos o seu composto e testamos. O objetivo era encontrar tratamentos para epilepsia de difícil controle. Percebemos que o peptídeo modificado era mais potente do que o composto natural e, além disso, que ele diminuía a morte dos neurônios, o que ajuda também em outras doenças neurológicas. Patenteamos em 2014”, detalha Lílian, que hoje é proprietária da patente do composto, junto com Márcia Renata Mortari, e já apresentou sua descoberta em palestras em países como Estados Unidos e Suíça.

Ela conta que escolheu a biomedicina porque queria ser cientista, mas que a inspiração para seguir veio de dentro de casa. “Me inspiro muito na minha mãe e na minha avó que, apesar de pessoas simples, têm grande sabedoria de vida”, diz. Vaidosa, Lílian sempre gostou de andar arrumada, maquiada e com as unhas feitas. A maneira como se apresenta gerou preconceitos desde o início da carreira. “Quando comecei meu estágio, minha capacidade foi questionada, pois estava sempre com as unhas feitas e teria que fazer trabalhos manuais, mas nunca titubeei, meti a cara e nunca deixei de fazer nada”, conta. “Muita gente ainda acha que mulher que estuda não pode ser vaidosa. A pessoas se impressionam com as minhas conquistas. Já ouvi dizerem: ‘Nossa, você aí toda Barbie, nem achei que estudava tanto'”, completa.

Hoje, do seu lugar de professora, Lílian sente que a trajetória até aqui valeu a pena, pois se vê inspirando várias alunas. “Tenho bons feedbacks delas. Elas sempre dizem que querem ser iguais a mim no futuro. A gente tem que saber o que quer. Eu quero ser alguém que inspira”, destaca.

Garra

Obstinada e apaixonada por ciência, Cecília Favali, 47 anos, é mestre em patologia, doutora em imunologia e professora do Departamento de Biologia Celular da Universidade e Brasília (UnB). Mãe de duas crianças, ela relata que a maternidade não a impediu de fazer um pós-doutorado na Alemanha nem de buscar sempre progredir na carreira. “Nós, mulheres, sempre ficamos com a parte mais difícil depois que os filhos nascem. Há pesquisas que mostram o quanto as carreiras das mulheres cientistas são afetadas depois da chegada dos filhos. Mas eu nunca deixei de correr atrás e de evoluir em todos os aspectos possíveis”, afirma.

Focada na pesquisa de doenças tropicais negligenciadas, Cecília se especializou na interação entre patógeno e hospedeiro. “Analisando as primeiras interações entre a leishmania e as células do hospedeiro, muitas vezes, o que acontece nesse primeiro encontro vai dizer se a pessoa terá uma doença grave ou leve, se tem tratamento etc.”, esclarece. “Doenças tropicais são negligenciadas, inclusive em termos de financiamento, e impactam a saúde de muitas pessoas”, acrescenta.

Na jornada pelo caminho da ciência, Cecília relata ainda que já sofreu machismo e preconceito por ser mulher, mas que nunca abaixou a cabeça. “Alguns homens ainda agem como se as mulheres estivessem ali para servi-los, seja fazendo trabalho sujo que eles não querem fazer, seja fazendo trabalho administrativo. Eu creio que isso está no caminho de acabar, mas ainda existe muito”, lamenta. Sempre que pode, ela busca ajudar outras mulheres dentro da carreira também. “Por exemplo, nas bancas de avaliação dos meus alunos, só chamo professoras mulheres, acredito que é uma forma de incentivá-las. Sei o quanto é uma carreira difícil, principalmente para quem está no início, em estágio probatório, por exemplo”, salienta.

Pertencimento

 A trajetória de Rosenelle Benício, 37 anos, sempre foi cercada por mulheres desde o início da vida acadêmica e profissional. Para ela, além de um incentivo, a presença de outras mulheres a ajudou a se sentir pertencente a um universo que sempre quis percorrer: a ciência. “Percorro um caminho já pavimentado por outras mulheres. Nunca pensei que a ciência não era um lugar para mim pelo fato de eu ser mulher”, destaca. “Sempre me senti acolhida e incentivada pelas mulheres que passaram pela minha trajetória profissional. Felizmente, tenho muitos exemplos femininos para me inspirar”, complementa.

Médica geneticista e doutoranda em ciências médicas, Rosenelle trabalha no setor de genômica do Laboratório Sabin e atua na investigação e mapeamento de síndromes genéticas. Ela foi uma das responsáveis pela implementação, no Sabin, de um exame de triagem neonatal molecular chamado de teste da bochechinha, que detecta simultaneamente várias condições não identificáveis por outros procedimentos, e que podem ser tratadas ou atenuadas quando diagnosticadas de forma precoce. “Condições raras, quando diagnosticadas precocemente, permitem que o tratamento seja iniciado mais cedo e há menos chance de se desenvolver sequelas”, declara.

Para Rosenelle, as especificidades da área que escolheu a motivam, diariamente, a seguir trabalhando e sendo melhor a cada dia. “Nós temos 20 mil genes e, até o momento, somente 8 mil doenças genéticas foram identificadas. Tem muita condição que a gente não sabe a causa ainda. Eu acredito na ciência e creio que, no futuro, teremos cada vez mais respostas. Quero continuar trabalhando para isso”, avisa.

Por Mila Ferreira do Correio Braziliense

Foto:  Kayo Magalhães/CB/ D.A Press / Reprodução Correio Braziliense